Prêmio Jovem Pesquisador: Apesar de melhorias, município acreano mantém índices de toxocaríase

Publicação: 8 de dezembro de 2014

Estudo feito no município de Assis Brasil, localizado na tríplice fronteira entre o Brasil, Peru e a Bolívia, aponta que condições precárias no ambiente peridomiciliar podem ter contribuído para que prevalência da doença não tenha reduzido drasticamente em um período de sete anos

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As doenças causadas pela larva migrans visceral e pela larva migrans ocular são consideradas duas das zoonoses parasitárias mais comuns em todo o mundo, afetando especialmente as crianças

A melhoria nas condições de moradia e fornecimento de água geralmente contribui para reduzir os índices de prevalência de doenças, especialmente parasitárias, em crianças nas regiões mais pobres. No entanto, no município de Assis Brasil, no Acre, apesar de terem ocorridos progressos visíveis nas condições de vida dos moradores em sete anos, a prevalência de uma doença chamada toxocaríase não apresentou redução drástica. A explicação pode estar na falta de infraestrutura no ambiente próximo ao domicílio, segundo aponta pesquisa do estudante de medicina Humberto Oliart Guzmán junto ao Grupo de Pesquisa em Medicina Tropical e Meio Ambiente da Amazônia da Universidade Federal do Acre (UFAC).

O trabalho, que ficou em quarto lugar no Prêmio Jovem Pesquisador, foi apresentado durante o 50º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop 2014), que ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto, em Rio Branco, no Acre. No estudo apresentado por Oliart-Guzmán, foram feitas duas análises de soroprevalência para toxocaríase no município de Assis Brasil: uma em 2003 e, a outra, em 2010. Na primeira, foram feitos exames de sangue em 146 crianças, enquanto na segunda, em 257.

“A prevalência da doença em crianças, em 2003, foi de 28%. Já em 2010, de 23%. Observamos que em sete anos houve diversas mudanças positivas no município, tanto nas condições de moradia e saúde como no fornecimento de água. Mas a soroprevalência da Toxocariase não diminuiu como o esperado, permanecendo praticamente igual”, explica o pesquisador.

Para Oliart-Guzmán, há algumas explicações para o fato. “Por mais que as condições tenham melhorado em volta da cidade, ainda existem muitos domicílios próximos a esgotos a céu aberto. Geralmente, as crianças que moram nessas residências, sem acesso à água encanada, estão em maior risco de se infectar com toxocara”, afirma.

Além disso, outro motivo seria o rápido crescimento populacional e o despreparo da cidade para lidar com esse fenômeno entre os anos de 2003 e 2010. “Com a construção da estrada do Pacífico que une o estado Acreano ao Oceano Pacífico houve um crescimento desorganizado do município de Assis Brasil, criando uma área basicamente formada por invasões. As condições de saúde e moradia nesse local são precárias e podem estar contribuindo para manter a transmissão da toxocaríase”, aponta. Atualmente, cerca de 6,6 mil habitantes vivem no município, que tem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado baixo pela Organização das Nações Unidas (ONU).

O estudo propõe que, além da necessidade de melhoria no saneamento básico próximo às moradias, sejam feitos novas pesquisas locais, especialmente onde há esgoto a céu aberto.

Incidência e prevenção

A toxocaríase é causada pelas larvas do toxocara – parasita encontrado nas fezes de cães e gatos. As doenças causadas pela larva migrans visceral (que tem esse nome por migrarem do sangue para vários órgãos do organismo humano) e pela larva migrans ocular (caso migrem para os olhos), são consideradas duas das zoonoses parasitárias mais comuns em todo o mundo, afetando especialmente as crianças.

Apesar de uma pequena parte dos adultos que vivem na Europa terem anticorpos contra o parasita toxocara, por já terem sido infectados, é nos países pobres onde há o maior número de casos da doença. Pesquisas apontam que mais de dois terços da população que vive em nações tropicais já foram afetadas pela doença, que não apresenta sintomas específicos. No entanto, pode ocorrer febre, perda de peso e diarreia, por exemplo. Em casos mais graves, acarreta em problemas neurológicos e de visão.

A prevenção pode ser feita a partir de medidas simples. Entre elas, não deixar o cão ou o gato defecarem em locais onde crianças possam brincar, limpar regularmente a caixa de areia do gato e lavar sempre as mãos antes de comer. Outras precauções incluem lavar bem verduras e legumes que podem conter ovos do verme e não consumir carnes cruas ou mal passadas. Além disso, é recomendável controlar as infecções dos animais domésticos a partir de medicamentos indicados por um médico veterinário.