Preços altos inviabilizam novas drogas contra hepatite C a nações africanas

Publicação: 11 de agosto de 2014

Caso haja redução nos valores, doença pode ser controlada até o ano de 2020

img-3

A nação africana tem a maior taxa de prevalência de hepatite C do mundo, chegando a 14,7% da população de 80,72 milhões de pessoas

Uma doença silenciosa que afeta entre 130 e 150 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), especialmente nos países de clima tropical da Ásia e da África. Esta é a hepatite C, que passa despercebida por anos para cerca de 80% dos infectados devido à falta de sintomas na maioria dos casos. Mesmo afetando uma porcentagem significativa da população, a comunidade científica está confiante que as novas drogas produzidas atualmente conseguirão controlar a enfermidade nos próximos anos – desde que os preços sejam reduzidos drasticamente.

Um desses medicamentos é o sofosbuvir (com o nome comercial Sovaldi), de via oral e desenvolvido pela empresa Gilead Sciences. Em combinação com outras terapias, pode curar eficazmente a hepatite C em 90% dos pacientes e evitar efeitos colaterais como cansaço e dores articulares. Além disso, pode dispensar o uso de injeções de interferon, beneficiando principalmente os pacientes que não toleram essa medicação e reduzindo de um ano para três meses o tempo necessário de tratamento. No Japão, foram aprovados recentemente pelo governo local outros dois remédios, Daklinza e Sunvepra , direcionados aos que não respondem às drogas convencionais.

“Se essas drogas forem comercializadas em países pobres a um preço barato, tendo aí uma possível interferência da OMS, estaremos com a hepatite C controlada no mundo por volta do ano de 2020”, explica o ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, entre 2005 e 2006, e professor titular de infectologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Dr. Marcelo Simão Ferreira .

A principal barreira para a entrada desses medicamentos nas regiões mais pobres é justamente o preço. Só o uso de sofosbuvir durante os três meses de tratamento associada com outra droga recomendada, como o simeprevir, pode custar cerca de US$ 150 mil. O tema é tratado como emergencial até mesmo pelas nações ricas da Europa . Ao final da última reunião dos ministros da saúde europeus, que ocorreu em Luxemburgo entre os dias 19 e 20 de junho, quinze países decidiram responder ao apelo realizado pela França e uniram-se contra o elevado custo do medicamento fabricado pela Gilead Sciences, exigindo uma diminuição do preço. Também este ano, a OMS lançou um apelo para a redução dos valores, sugerindo opções como o licenciamento voluntário dos remédios pelo fabricante para a indústria de genéricos.

Valores mais baixos para o governo

Quando há interesse de compra de medicamentos pelos órgãos governamentais, o valor das drogas tende a ser mais baixo, mas ainda caro, de acordo com o Dr. Ferreira. “No caso do Brasil, por exemplo, as medicações aprovadas pelo governo, Telaprevir e o Boceprevir – que nem sequer são mais usadas nos Estados Unidos e na União Europeia, tinham o custo do tratamento estimado em US$ 60 mil cada. O governo brasileiro comprou pela metade disso, mas ainda é um valor muito alto”, explica.

Um acordo feito este ano entre a Gilead e o governo egípcio vai possibilitar o tratamento de três meses com sofosbuvir por cerca de US$ 300 por mês por paciente, o que equivale a renda média mensal de uma família daquele país. Considerando os números de infectados, o que parece ser um bom negócio para a população local é, principalmente, para a empresa. A nação africana tem a maior taxa de prevalência de hepatite C do mundo, chegando a 14,7% da população de 80,72 milhões de pessoas – com níveis que alcançam entre 26% e 28% em regiões como o Delta do Nilo.…