Poluição provocou uma em cada oito mortes no mundo, em 2016

Publicação: 8 de janeiro de 2019

Segundo dados da OMS, a poluição do ar nos domicílios foi responsável por 3,8 milhões de mortes. Crianças e mulheres fazem parte do grupo mais vulnerável

No mundo, mais de 40% da população depende de combustíveis poluentes para cozinhar. Sua utilização em fogueiras ou fogões tradicionais resulta em altos níveis de poluição do ar doméstico

A poluição do ar afeta todas as regiões do mundo. No entanto, as populações em cidades de baixa renda são as mais afetadas. De acordo com o mais recente banco de dados de qualidade do ar, publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), 97% das cidades em países de baixa e média renda com mais de 100 mil habitantes não atendem às diretrizes de qualidade do ar. Em 2016, a poluição do ar interior e exterior causou cerca de 7 milhões de óbitos, ou seja, uma em cada oito mortes no mundo.

A qualidade do ar interior e os poluentes são hoje reconhecidos como uma fonte potencial de riscos à saúde. Há evidências consistentes de que a exposição à poluição do ar doméstico pode levar a infecções respiratórias agudas em crianças com menos de cinco anos, além de doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral, doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão em adultos. Segundo dados da OMS, em 2016, a poluição do ar nos domicílios foi responsável por 3,8 milhões de mortes .

Crianças e mulheres mais vulneráveis à poluição interna

Globalmente, mais de 40% da população depende de combustíveis poluentes para cozinhar . Estes materiais, que incluem combustíveis de biomassa (madeira, esterco, resíduos agrícolas), querosene e carvão, são queimados em fogões brutos cuja baixa ventilação não permite a combustão completa das partículas. Cozinhar e aquecer com combustíveis poluentes em fogueiras ou fogões tradicionais resulta em altos níveis de poluição do ar doméstico. A fumaça interna contém uma série de poluentes prejudiciais à saúde, como pequenas partículas e monóxido de carbono, e os níveis de poluição por partículas podem ser 20 vezes maiores do que os valores aceitos das diretrizes. As mulheres são vítimas desta exposição por passarem mais tempo em ambiente interior. Na Índia, por exemplo, cerca de 83% das famílias rurais e quase 20% das famílias urbanas usam combustíveis sólidos de biomassa para cozinhar. Além disso, a culinária exige longas horas, usando muitos óleos para frituras, produzindo vapores que são inalados, afetando a saúde das mulheres.

Já as crianças fazem parte do grupo mais vulnerável à poluição do ar em ambientes fechados porque os bebês e as crianças pequenas têm uma taxa metabólica de repouso mais alta, bem como uma maior taxa de consumo de oxigênio por unidade de peso do que os adultos. A poluição do ar em ambientes fechados enfraquece os pulmões e reduz a imunidade, tornando as crianças mais suscetíveis a doenças infecciosas transmitidas pelo ar, como resfriado e gripe. A poluição do ar interior também afeta o desenvolvimento das glândulas endócrinas, sistema nervoso e imunológico das crianças, bem como o desempenho acadêmico, causado pelas faltas na escola em decorrência às doenças como alergia e asma e a diminuição dos níveis de concentração.

Poluição intradomiciliar resulta da ausência de fogão eficaz

Apelidado de “o assassino na cozinha”, a poluição do ar doméstico é considerada a principal causa ambiental de morte e incapacidade. O problema da fumaça provocada pela queima de carvão e gravetos é tão grande que mata mais gente que HIV, Tuberculose e Malária juntos.

Além disso, envolve a questão do aquecimento global, que tem provocado mudanças climáticas, como excesso de chuvas e deslizamentos de terra que mataram vários Ruandenses nos últimos anos. Preocupado com essa triste realidade, Eric Reynolds, fundou uma empresa (Inyenyeri) de fogões na zona rural de Ruanda, que tem como objetivo atender as pessoas mais pobres do mundo, conter o desmatamento na região e salvar milhões de vidas.

Em recente reportagem publicada no The New York Times, Eric Reynolds, revela que está prestes a libertar grande parte da humanidade do flagelo mortal da fumaça provocada pelo fogo da cozinha, proteger o que resta da floresta do continente e ainda ajudar a salvar o planeta das mudanças climáticas. “É vergonhoso que tenhamos três bilhões de pessoas ainda cozinhando como na Idade da Pedra”, lamenta ao acrescentar que isso é totalmente solucionável.

“Aparentemente a grande maioria das pessoas, especialmente as que vivem em áreas rurais de Ruanda, cozinham com carvão ou gravetos. Essas pessoas gastam cerca de três horas por dia coletando gravetos ou gastam uma parte considerável de suas rendas comprando carvão. Cozinhar dessa forma coloca as pessoas em contato com a fumaça tóxica”, ressalta. Inconformado com a situação e em busca de solução, Reynolds testou fogões feitos na Itália, na Índia, nos Estados Unidos e na China. Foi quando decidiu criar o seu próprio fogão. Ele experimentou fazer carvão de espigas de milho, tentou queimar folhas de bananeira, até descobrir os “pellets” (balinhas de madeira) utilizadas como combustível, bem menos poluente do que madeiras ou carvão, e ainda reduz em até 90% o consumo de matéria prima vegetal.

Depois de muitas tentativas, ele utilizou fogão de fabricação holandesa, que queimam a madeira com emissão de gases limpos e, com a utilização de pellets, reduziu a necessidade do uso da madeira em até 90% em comparação com o carvão. Entretanto, esses fogões custam mais de US$ 75. Foi quando surgiu a ideia de que a Inyenyeri poderia fornecer os fogões de graça enquanto as pessoas precisariam comprar os pellets, que são 30 a 50% mais baratos que o carvão. “O negócio seria vender combustível todos os dias em vez de vender um fogão a cada dois anos”, explica Reynolds. Ainda segundo ele, o segredo não é o fogão ou o combustível, mas uma combinação balanceada entre os dois.

Atualmente, a Inyenyeri tem escritórios de distribuição em cidades e aldeias em Ruanda, incluindo uma dentro de um campo para refugiados da vizinha República Democrática do Congo (RDC). Ela opera uma fábrica de pellets de pequena escala em Gisenyi, uma cidade no Lago Kivu, e está desenvolvendo uma fábrica maior.

De acordo com a reportagem do “New York Times”, a empresa desenvolveu seu próprio software de gerenciamento de clientes para rastrear compras de pellets, hábitos de consumo dos clientes e uma série de outros dados, atualizados em tempo real por pessoas em campo usando um aplicativo móvel. Os dados atraíram instituições de pesquisa, incluindo os Institutos Nacionais de Saúde, a Universidade Johns Hopkins e a Universidade da Carolina do Norte. Eles realizaram estudos sondando como a tecnologia de culinária limpa afeta a saúde pública, e como as famílias livres da coleta de madeira usam seu tempo extra.

 

Saiba mais sobre o assunto:

“This Small World”

https://www.youtube.com/watch?v=AtmYa_AbHsU&feature=youtu.be

“Better. Together”

https://www.youtube.com/watch?v=tGn9vcFx7LM

“Tea Time”

https://www.youtube.com/watch?v=RdQ9rIv9OdY

Os chamados fogões limpos têm sido apontados como uma solução, principalmente pela Aliança Global para Fogões Limpos, uma coalizão lançada por Hillary Clinton em 2010. Clinton declarou que os fogões “poderiam ser tão transformadores quanto os mosquiteiros ou até as vacinas”, que economizaram milhões de vidas. Fogões limpos podem “salvar vidas, melhorar os meios de subsistência, capacitar mulheres e proteger o meio ambiente”, disse à Aliança Global.

Estudos sobre efeitos causados pela poluição interna

Nos últimos anos, os pesquisadores aprenderam muito sobre como a exposição a poluentes internos contribui para doenças. Pesquisadores financiados pelo National Institutes of Health (NIH) estão procurando maneiras de reduzir os danos causados pela poluição do ar em ambientes fechados. Os estudos englobam perguntas como: o que fazemos sobre isso? O que pode ajudar a reduzir algumas dessas exposições?

Na matériaAções globais visam reduzir problemas de poluição intradomiciliar”, publicada em 2014, (), o Dr. Carlos Costa, Coordenador-geral das Mídias da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), já alertava para o assunto. “Este é um dos novos temas que a Medicina Tropical deve se envolver, pois ocorre principalmente no binômio que caracteriza os Trópicos: clima e pobreza. Tendo como tema central de sua atuação a saúde dos povos tropicais, a Medicina Tropical deve incluir estes itens em seu escopo de agravos com os quais lida em seus congressos e em seu periódico”. Ainda segundo ele, a mídia social tem sido importante aliada neste processo, uma vez que um número cada vez maior de pessoas tem acesso a ela, aos dados e às discussões sobre o tema, fazem com que as pessoas tenham a capacidade de se preocupar com o assunto e agora dispõem de meios para debater em público. Mas, alerta, “Poluição intradomiciliar não é um problema tropical apenas, é uma ameaça global. Na verdade, o uso de fogões limpos é a maneira mais simples e imediata de agir contra o ameaçador aquecimento global”, conclui.