Pela primeira vez, farmacêutica de país emergente contribui decisivamente para erradicação da Bouba no mundo

Publicação: 6 de junho de 2017

De cada 10 pessoas afetadas, sete são crianças que vivem principalmente em comunidades pobres e rurais de regiões da África

A empresa brasileira EMS assumiu o compromisso de doar à OMS azitromicina, antibiótico necessário para acelerar o combate a esta doença rara

Durante a semana mais importante para doenças tropicais negligenciadas, a empresa farmacêutica brasileira EMS anunciou apoio a uma iniciativa renovada da Organização Mundial da Saúde (OMS) para conseguir a erradicação da bouba no mundo até 2020. Dentro dessa parceria, o papel da EMS é fornecer todos os lotes do antibiótico azitromicina necessários. A expectativa é de que, apenas no primeiro ano de parceria, a EMS forneça 40 milhões de comprimidos.

O porta-voz, presidente do Conselho de Administração do Grupo NC, do qual a EMS é a principal empresa, Carlos Sanchez, explica que nos últimos anos, a empresa tem olhado com atenção a questão do acesso a pacientes com doenças negligenciadas e percebeu, no projeto para erradicar a bouba, uma grande oportunidade de colaborar com a promoção da saúde de uma forma global. “Por meio dos comitês científicos da empresa no Brasil e nos EUA, temos identificado oportunidades, como essa aproximação com a OMS para o combate à bouba, com o objetivo de expandir a promoção do acesso à saúde a um número cada vez maior de pessoas. A erradicação da bouba é um enorme desafio que foi abraçado com muita determinação”, destaca.

O diretor do Departamento de Controle de Doenças Tropicais Negligenciadas da OMS, Dr. Dirk Engels, assinala que o anúncio é uma boa notícia para as pessoas, principalmente para as crianças que sofrem de bouba e que podem ser completamente curadas com um único tratamento. “Com esta doação, queremos envolver e incentivar os países onde a transmissão ainda está ocorrendo para erradicar esta doença”, disse. De cada 10 pessoas afetadas, sete são crianças que vivem principalmente em comunidades pobres e rurais de regiões da África, da Ásia, da América Latina e do Pacífico.

Ainda segundo Sanchez, somente unindo esforços será possível erradicar doenças e garantir a qualidade de vida das pessoas ao redor do mundo. “O sucesso da implementação da estratégia da OMS pode garantir que a bouba se torne a primeira doença a ser erradicada por meio do uso de antibióticos”, observa. A única doença erradicada até agora é a varíola – o que ocorreu em 1980, usando-se uma vacina. Outras doenças que se aproximam da erradicação são poliomielite e dracunculíase.

A administração de uma dose única de azitromicina oral deve facilitar a implementação da nova estratégia de erradicação da OMS desenvolvida em 2012, que é mapear as comunidades em que a doença está presente e o tratamento em massa de todos os habitantes elegíveis dessas comunidades, seguido de tratamento orientado daqueles que ainda têm a doença e para os indivíduos mais próximos desses pacientes. Também implica a manutenção de atividades de sensibilização para a doença e a permanente vigilância ativa clínica e epidemiológica para identificar quaisquer novos casos.

A bouba é classificada como uma das 18 doenças tropicais negligenciadas pela OMS. Entre 2008 e 2015, 461 mil casos de bouba foram notificados nos 13 países onde a doença é atualmente endêmica. Há muitos anos, o Brasil não tem casos relatados da doença. Em 2016, a Índia foi o primeiro país certificado pela OMS como livre da bouba. Há alguns anos, o tratamento era feito por meio de injeções de penicilina benzatina. Em 1950, a OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) lideraram um esforço mundial para erradicar a doença utilizando uma injeção de penicilina em campanhas de tratamento em massa. Foram examinadas mais de 300 milhões de pessoas e 50 milhões foram tratadas. Até 1964, o número de casos tinha sido reduzido para 2,5 milhões de pessoas, mas o objetivo final da erradicação não foi atingido. Em 2012, pesquisadores descobriram que uma única dose oral de azitromicina, era extremamente eficaz, o que possibilitaria, pela facilidade de cura, a erradicação da doença. Acredita-se que os seres humanos sejam os únicos portadores e a transmissão é feita de pessoa para pessoa.