O próximo desafio da RSBMT é aumentar seu Qualis-Capes?

Publicação: 10 de janeiro de 2018

Os critérios de avaliação das agências de fomento exercem poderosa influência no processo de divulgação da publicação científica nacional. Entretanto, há dúvidas sobre a sua importância para a ciência. Sobre o assunto, opinam dois editores da SBMT

A RSBMT é o 3º periódico nacional na área de Doenças Infecciosas e Medicina Tropical. Em Doenças Infecciosas e Parasitárias ocupa a 11º posição mundial quando se usa a opção Tropical Medicine

Em 2017, o fator de impacto da Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT) passou de 0.949 para 1.161 JCR (Thompson Reuters). Esse conceito (fator de impacto) começou a ser bastante cultuado recentemente pelos órgãos de fomento à ciência do Brasil. Como consequência, passou a ter influência na qualidade da ciência brasileira, na carreira de pesquisadores nacionais e na importância dos periódicos do Brasil.

O Editor Associado da RSBMT Dr. Carlos Henrique Costa esclarece que os valores do fator de impacto, não têm, em sua origem, nenhuma relação com o que se pode chamar de “qualidade da ciência”, mas sim, com “repercussão comercialmente enviesada da ciência”. A qualidade de um artigo científico é uma consequência da sua validade interna, da qualidade da ciência que ele reporta, não do número de vezes que o artigo foi citado. Dr. Carlos Henrique Costa cita o Professor Eugene Garfield – o criador do fator de impacto – segundo o qual, o fator de impacto é uma ferramenta útil para avaliação de periódicos, mas que deve ser usado com cautela. Segundo ele, existem vários elementos extra-científicos que influenciam o fator de impacto, como o número de revisões bibliográficas publicadas, o assunto, etc.

Com o novo fator de impacto, a RSBMT tornou-se o 3º na área de Doenças Infecciosas e Medicina Tropical dentre periódicos nacionais e internacionais, e o 6º no ranking mundial, quando se usa a opção Open Access, com acesso 100% aberto e gratuito. Na área de Doenças Infecciosas e Parasitárias, quando se usa a opção Tropical Medicine, ela é o 11º periódico no ranking mundial, também, com acesso gratuito para autores e pesquisadores. Para o Editor Associado da RSBMT Dr. Manoel Otávio Rocha, o reconhecimento internacional do valor científico da Revista deve melhorar sua visibilidade e, consequentemente, seu reconhecimento de mérito. “Esta certificação deverá ter impacto no sistema de pós-graduação e na melhoria da qualidade da demanda, em razão da produção científica de qualidade ser mais direcionada para publicação na RSBMT, uma vez superado o receio de que, independentemente de seu mérito, o trabalho possa, por arbítrio de consideração de impacto, não ser considerado devidamente pelas agências de fomento”, frisa.

Para aumentar o nível técnico-científico da RSBMT, o Dr. Manoel Otávio Rocha sublinha a relevante função dos revisores que, segundo ele, devem se dedicar ao aprimoramento das publicações envidando seus melhores esforços, exercendo esta atividade com necessária prioridade. O Dr. Carlos Henrique Costa concorda. “O importante é que a ciência publicada seja de boa qualidade. Para tal, é fundamental o papel de corpo editorial e de revisões rigorosas dos revisores de pares, eventualmente assistindo positivamente aos autores que apresentam alguma dificuldade de edição ou análise, mas que têm pesquisas potencialmente de boa qualidade”, acrescenta. Ainda segundo ele, como a RSBMT é de submissão e de acesso gratuitos, ao se gerar publicações de qualidade, será uma questão de tempo para que ela se torne procurada por pesquisadores de todo o mundo (o que já está acontecendo, como nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz), o que resultará – por isso e apenas por isso – em aumento do seu prestígio científico, que é o que realmente interessa à SBMT.

Revistas dependem do reconhecimento dos órgãos de fomento

O doutor Manoel Otávio Rocha reconhece que órgãos de fomento, especialmente a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), têm dado crescente atenção à pesquisa e divulgação científica relacionadas às doenças endêmicas e/ou negligenciadas. “Temos que cumprir nosso papel social, como professores e pesquisadores, voltando nossa atenção preferencial ao estudo, com excelência, dos problemas de saúde que mais interessam à nossa população. Desse esforço continuado resultará a maior e crescente visibilidade de nossas revistas”, completa.

O Editor Associado Dr. Carlos Henrique Costa lembra que até pouco tempo a RSBMT era publicada apenas em português, o que levou a certo desprestígio perante pesquisadores e ao próprio Clarivate Analytics. “Além disso, o nosso periódico publica assuntos de Medicina Tropical, com temática muitas vezes de caráter exclusivamente regional – devido às relações ecológicas das doenças tropicais – e, naturalmente, de pouco interesse para os países ricos e de boa ciência, que têm clima sub-tropical ou temperado. Nos Trópicos, concentra-se a pobreza do mundo, e onde há menor financiamento à pesquisa, inclusive em Medicina Tropical. Tudo conspira para os baixos fatores de impacto de periódicos que lidam com assuntos tropicais”, lamenta. Por isso mesmo, opina, “a SBMT não deve dar muita bola para este corpo estranho chamado fator de impacto”.

O próximo desafio da RSBMT junto aos órgãos de fomento seria no sentido de aumentar sua classificação no Qualis-Capes. Para isso, há um círculo vicioso a ser quebrado. A RSBMT acaba de romper um de seus elos, com a melhoria do seu fator de impacto. Os critérios de avaliação das agências de fomento exercem poderosa influência no processo de divulgação da publicação científica nacional. “O que se faz necessário é persistir na busca da excelência. Isso trará aumento da apresentação qualificada de artigos para publicação e a melhora da reputação das revistas nacionais”, assinala o Dr. Manoel Otávio Rocha.

Para o Dr. Carlos Henrique Costa, o que tem sido lamentável em todo esse processo é o fato das agências de fomento brasileiras se alinharem com os interesses comerciais dos grandes editores que utilizam o fator de impacto para conquistar mercados. “Fazendo isso, elas criam enorme vício na ciência nacional, que é o de priorizar os interesses mercantilistas de editores científicos em detrimento da boa ciência, ao mesmo tempo em que induzem ao desvio dos poucos recursos científicos – agora mais que nunca – para o pagamento de publicações que custam, literalmente, uma fortuna para nós. É importante que essas instituições sabidamente honorárias, salientem que não estão influenciadas pelos interesses comerciais dos grandes grupos editoriais que se beneficiam do Qualis-Capes”, finaliza.