O Aedes continua vencendo os humanos e isso precisa ser logo invertido

Publicação: 14 de fevereiro de 2018

Por Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak
Os autores são professores universitários, com especialização em clínica de doenças infecciosas e parasitárias.

Insistimos que a melhor solução para controlar o Aedes é ainda o uso de mosquitos transgênicos, como citamos acima. Não entendemos a dificuldade de implantar este uso, que levou a firma que os produz a desistir de fazer isto no Brasil

O Aedes é mosquito muito competente para transmitir viroses à espécie humana. A lista de doenças assim transmissíveis é grande: dengue, Chikungunya, Mayaro, Zika, e febre amarela. Todas passeiam pelo nosso país, sendo verdadeiro milagre não termos ainda a febre amarela urbana. Sim, porque casos dela em macacos continuam ocorrendo e cada vez mais pessoas invadem o espaço ecológico dos animais selvagens. Na verdade, basta que um caminhoneiro, por exemplo, adquira febre amarela silvestre, venha durante o período de incubação para uma cidade e seja picado por Aedes, que está em grandes quantidades, faminto. Assim, o desastre ficará feito. Não aconteceu ainda porque entre outros males difundidos pelo Aedes, a febre amarela tem prevenção por meio de excelente vacina, amplamente usada para circunscrever focos de tal moléstia. Mas preocupa-nos a possibilidade de escape do vírus nas cidades, mal-arrumadas, cheias de lugares onde as condições para a proliferação do mosquito são praticamente ideais e fora do acesso dos vários governos. Existem regiões onde nem a polícia entra, quanto mais os membros da vigilância sanitária.

Como o Aedes é o vetor de todas as viroses citadas, combate a ele teria a vantagem de limitar todas. Com mosquitos transgênicos machos, que ao cruzarem-se com fêmeas com vírus levam prole defeituosa, sendo capazes de causar grandes quedas da população mosquital. Algumas experiências de campo aconteceram com mosquitos produzidos pela “Oxytec”. Poderíamos produzi-los aqui em escala industrial e controlar as populações de Aedes, mas recentemente a empresa desistiu de implantar fábrica no Brasil.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) não consegue resolver se a obtenção de mosquito transgênico é ou não da sua alçada e, na melhor tradição das burocracias brasílicas, deixou o processo mofando em gaveta. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) já aprovara o uso destes mosquitos. A gente tenta, mas não consegue compreender como o burocratismo sanitário nacional não se resolve, privando os brasileiros de método biológico que parece ser muito eficiente para controlar o Aedes e, de quebra, todos os vírus que ele transmite.

Dengue, Chikungunya, Mayaro e Zika têm sintomas parecidos, com algumas variações. Na fase aguda de todas elas o único jeito de fazer o diagnóstico preciso é através de exames laboratoriais. Os testes imunológicos não são difíceis de executar, mas nem sempre estão disponíveis quando deveriam. E enquanto os vírus ficam circulando, desenvolvem mutações que podem possuir importância clínica: uma única mudança tornou-o capaz de fazer todas aquelas maldades em fetos levando à microcefalia. Além do diagnóstico precisamos equipar-nos para atender as muitas crianças, sequeladas, o que também não é fácil e o Sistema Único de Saúde (SUS) admite como ponto mais fraco a reabilitação.

Outras possibilidades podem controlar o Aedes: infectá-lo com bactérias que o deixam menos suscetível aos vários vírus e também agem de maneira vertical ou selecionam Aedes naturalmente resistentes às infecções virais. Agora que são conhecidos novos recursos, como o genoma de qualquer espécie, seria possível caminhar para a engenharia genética. Mas isto exige investimentos em pesquisas e por um tempo longo. Não vai ser assim de repente. Nossos investimentos em pesquisas não andam bem. Os recursos são poucos e distribuídos às vezes com critérios pouco claros. Ou francamente desperdiçados. A utilização de recursos públicos para analisar uma droga que nunca mostrou eficiência contra o câncer, apenas porque alguns deputados acharam que isto valia a pena. E claro, não deu em nada, mas já percebemos alguns pais da pátria, que de pesquisas não entendem nada, querendo mais estudos deste tipo porque “ninguém provou que a droga não funciona”, lembrando que em ciência nunca prova-se o negativo.

Impõe-se enfrentamento eficiente ao Aedes. Argumentar justificando que isso não é simples, alegando entre outros fatos que a enorme área territorial e a escassez de verbas são dificuldades representativas de obstáculos marcantes. Não é bem assim. Prioridade e vontade governamental são essenciais a fim de esfriar malefícios. Relevante é não deixar escapar dinheiro, hoje existente bastando capturar o que está com corruptos, salteadores de bens nacionais. Outrossim, é imprescindível prevenção da sobrenatural pilhagem que fazem.

Considerando as maldosas, perversas e nocivas consequências que o Aedes permite, fica evidente a necessidade de combatê-lo logo, efetivamente. No momento, parece que aguardem o enfraquecimento desse vetor, em virtude de algo inesperado mas concreto. Se acontecer haverá júbilo, e almejamos sucesso. Todavia, sensato não haver acomodamento. Portanto, combater desde já, de forma ampla, bem planejada e permanentemente os transmissores indesejáveis e abundantes. Atos ocasionais e limitados são bastante insuficientes.

Insistimos que a melhor solução para controlar o Aedes é ainda o uso de mosquitos transgênicos, como citamos acima. Não entendemos a dificuldade de implantar este uso, que levou a firma que os produz a desistir de fazer isto no Brasil. Não há o menor risco de espalhamento destes genes por aqui, e a única espécie semelhante de Aedes, o Aedes albopictus, que eventualmente poderia cruzar com o Aedes aegypti também é outra praga. Ambas são fauna exótica, que não existia antes do tráfico negreiro. Aliás, esta postura contra transgênicos ignora que o homem abusa da seleção natural há muito tempo, muito antes dos truques genômicos que temos hoje, mas com o mesmo resultado final. Outras modalidades biológicas como descobrir alguma bactéria que adore devorar larvas de Aedes estão sendo pesquisadas, mas por enquanto não as temos.

 

*Vicente Amato Neto é ex-professor de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade de São Paulo e Jacyr Pasternak tem doutorado em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade de Campinas. Está atualmente no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ambos são escritores.