Mayaro: doença pouco conhecida pode estar próxima de virar epidemia?

Publicação: 10 de abril de 2017

Dr. Pedro Vasconcelos ressalta que é preciso investimentos robustos para conhecimento mais sólido da epidemiologia do vírus Mayaro, inclusive para subsidiar eventuais estudos voltados para desenvolvimento e uso de vacina

Dr. Pedro Vasconcelos

Vacina para o Mayaro deve levar entre 5 e 10 anos para estar disponível

Detectada em 1954, a febre do Mayaro, causada pelo vírus Mayaro (família Togaviridae, gênero Alphavirus), tem preocupado autoridades em saúde de todo o País. No entanto, o virologista Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas, do Ministério da Saúde, não acredita que o vírus esteja se espalhando ou se aproximando das regiões mais populosas do Brasil. Segundo ele, não existem estudos que suportem essa afirmação sendo necessário realizar levantamentos para definir a real incidência e prevalência da infecção no Brasil, em particular nas regiões Sul e Sudeste.

Nos últimos 15 anos, pesquisadores vêm buscando pelo vírus Mayaro. “Aqui no Brasil, estamos analisando os isolados virais e realizando sequenciamento dos mesmos, para análise filogenética e evolutiva, bem como mapeamento dos genótipos virais do Mayaro”, explica o médico. Ele assinala que a prevalência de anticorpos é menos de 5%. “O que ocorre é que poucos laboratórios têm capacidade de diagnosticar a doença”, enfatiza. Os sintomas da enfermidade são semelhantes aos da dengue e do Chikungunya. Para diferenciá-las, é necessário fazer exames virológicos (isolamento viral e RT-PCR em tempo real) e sorológicos (IgM-ELISA) que são específicos não ocorrendo reação cruzada com dengue e mínima reação cruzada com Chikungunya.

Ainda não existe uma vacina específica para combater o vírus. Porém estudos neste sentido já começaram a ser desenvolvidos. “Mas o tempo para termos uma vacina eficaz é imprevisível e nenhuma que está começando a ser desenvolvida deverá estar disponível antes de 5 a 10 anos”, observa o virologista acrescentando que são necessários investimentos robustos para conhecimento mais sólido da epidemiologia do vírus Mayaro, inclusive para subsidiar eventuais estudos voltados para desenvolvimento e uso de vacina. Enquanto esta não chega, a população pode se prevenir com medidas de proteção individual: evitar entrar em matas onde esteja ocorrendo casos recentes da doença e usar repelente e roupas que protejam contra picadas dos transmissores, que são os mesmos da febre amarela silvestre, mosquitos Haemagogus e Sabethes.

Em um artigo publicado na revista Scientific American, no final de 2016, Marta Zaraska, jornalista especializada em ciência, destaca que a semelhança com o vírus do chikungunya poderia explicar por que o vírus Mayaro pode se tornar um problema generalizado. Ambos os vírus eram originalmente transmitidos por mosquitos da selva, infectando pessoas na região amazônica, mas o Chikungunya tem se adaptado e hoje é transmitido por mosquitos urbanos, como o Aedes albopictus e o Aedes aegypti. Segundo Zaraska, o mesmo pode vir a ocorrer no caso do Mayaro.

Segundo dados do Ministério da Saúde, entre dezembro de 2014 e janeiro de 2016, foram registrados 343 casos humanos suspeitos de doença pelo vírus Mayaro, identificados em onze estados, distribuídos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com destaque para o estado de Goiás, seguido do Pará e Tocantins. Entre os casos, 70 foram confirmados e 29 foram descartados.