Maruins: os menores dípteros hematófagos, negligenciados mas importantes

Publicação: 14 de outubro de 2017

Carlos Brisola Marcondes

Professor Titular do Departamento Microbiologia, Imunologia e Parasitologia (MIP) do Centro de Ciências Biológicas (CCB) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

A mansonelose está em geral relacionada aos maruins, sendo uma doença negligenciada, de ampla distribuição no continente americano e na África. Não só ela causa problemas per se, mas também ocasiona complicações para o diagnóstico e tratamento de outras filarioses

O recente relato de casos de infecção por vírus Oropouche em Salvador e proximidades vem chamar a atenção para os pequenos maruins. O estudo destes dípteros, os menores que sugam sangue, têm sido negligenciado, por serem pequenos (1-2 mm, às vezes até 4 mm) e parecerem apenas irritar por suas picadas.

Realmente, eles são irritantes, especialmente quando atacam em grande número, podendo desvalorizar imóveis e regiões, devido à alergenicidade de sua saliva. O turismo pode ser muito afetado, pois a tolerância é muito menor quando se está a passeio num local que quando se está morando ou trabalhando. Além do incômodo causado aos humanos, podem causar uma dermatite (“sweet itch”) em equinos. Como disse um especialista australiano, “um maruim é uma maravilha entomológica, mil são o inferno”.

Eles têm também sido incriminados na transmissão de pelo menos 50 arbovírus. Os vírus Bluetongue e Schmallenberg têm sido reportados em vários ruminantes. O primeiro ocorre em vários continentes, com numerosos sorotipos, havendo vários relatos de ocorrência em quase todos os países da América do Sul; causa grande dano à criação de carneiros e é pouco estudado no Brasil. O segundo tem sido relatado amplamente na Europa, e também causa grandes prejuízos ao gado. Os europeus estão muito preocupados com a African Horse Sickness, também causada por vírus transmitido pelos maruins, que causa sérios prejuízos ao atingir cavalos, principalmente relacionados com esportes; epidemias já causaram a morte de 70.000 cavalos (40% do rebanho) na província do Cabo (África do Sul) e 300.000 numa área do Chipre ao Afeganistão, em 1959. Vários outros vírus (orthobunyavirus, orbivírus e rhabdovírus) ocorrem em bovinos no Japão. Com a importância da pecuária no Brasil, é preciso, portanto ter muita atenção com estes arbovírus.

Os humanos têm sido afetados pelo vírus Oropouche, que causa sintomas parecidos com os de dengue, podendo ocorrer em epidemias atingindo grande proporção das populações, como ocorreu em Serra Pelada. Antes aparentemente restrito à Amazônia e países ao norte da América do Sul, tem ocorrido em outras áreas. Mesmo não causando (ainda) óbitos, pode causar grande sofrimento e incapacidade temporária.

A mansonelose está em geral relacionada aos maruins, sendo uma doença negligenciada, de ampla distribuição no continente americano e na África. Não só ela causa problemas per se, mas também ocasiona complicações para o diagnóstico e tratamento de outras filarioses.

Há indicações de envolvimento de maruins na transmissão de várias leishmanias do grupo enrietti, principalmente na Austrália. Estes mal conhecidos tripanosomatídeos ocorrem na África (Gana), causam leishmaniose visceral e cutânea no sudeste asiático, na Austrália, onde atingem cangurus, e no Brasil, com L. enrietti e L. forattini, aparentemente restritas a roedores. Em estudos na Austrália, nenhum de 1.818 flebotomíneos de Sergentomyia examinados estava positivo, mas até formas aparentemente infectantes (semelhantes a promastigostas metacíclicos) foram encontrados em maruins; só está faltando a transmissão experimental por estes dípteros. Além disso, mesmo não sendo possível ainda incriminá-los na transmissão de L. braziliensis e L. amazonensis, eles foram encontrados com DNA destes protozoários no Maranhão.

Os maruins têm biologia muito variada, sendo suas formas imaturas encontradas em vários tipos de ambientes, incluindo frutas podres, água parada de vários tipos no solo, internódios de bambus, água com estrume etc. Os adultos podem voar centenas de metros e ser transportados por grandes distâncias pelo vento, e picam com mais frequência ao anoitecer, mas há espécies que picam em vários horários. Apesar de se associar maruins com mangue, há espécies cujas larvas se desenvolvem em vegetais em decomposição (cacau e bananeiras); algumas áreas de bananais em Santa Catarina (e.g., Corupá) têm uma quantidade irritante de maruins. Em Salvador, um estudo de 1964 já descrevia os problemas dermatológicos causados por maruins na cidade, com grande predominância de Culicoides paraensis, envolvida na transmissão de vírus Oropouche no Pará e outras áreas.

O controle é muito difícil, principalmente com pouco conhecimento da fauna e da biologia. A aplicação de telas em domicílios e estábulos é ineficiente, pois elas precisariam ser tão fechadas que prejudicariam a ventilação; mesmo quando elas são impregnadas com inseticidas não impedem totalmente a passagens destes insetos diminutos, o que é imprescindível se houver intenção de evitar arboviroses. Os inseticidas são pouco eficientes, tanto aplicados em instalações quanto nos animais, e os repelentes têm várias limitações, especialmente para cavalos. O custo da nebulização de inseticidas é muito alto para uso frequente.

Pelo seu tamanho diminuto, sendo necessário dissecá-los para a identificação, e por não haver (ainda) indicações de grande importância médica e veterinária no país, seu estudo não tem tido a popularidade e o financiamento dedicado a outros dípteros, como os mosquitos e os flebotomíneos.

A fauna de maruins do Brasil, já incluindo quase 500 espécies descritas, precisa da dedicação de uma quantidade muito maior de pesquisadores, que atualmente são algumas dezenas, certamente subfinanciados. É um grupo de grande importância, e não se pode esperar que surjam problemas mais sérios com arbovírus, para que se vá formar pessoal e desenvolver pesquisas. Não se treina bombeiros após o incêndio começar, mas sim antes.