Leish-L: Fórum possibilita integração e troca de informações sobre uma doença negligenciada, enfatiza Jeffrey Shaw

Publicação: 7 de maio de 2018

A singularidade da Leish-L é que não há limites para a natureza dos problemas que podem ser discutidos e permite o acesso de pessoas que trabalham em regiões onde há escassez de especialistas

Essa lista de discussão por e-mail sobre Leishmania foi o primeiro grupo de notícias que lidou com uma doença, além de ser a lista mais antiga do mundo dedicada a um grupo de patógenos dispersos, muito diversificados e importantes. Atualmente a Leish-L conta com 2.625 pessoas inscritas

Em 1992, apenas dois anos após o lançamento da World Wide Web, a Dra. Lois Blaine, diretora de bioinformática da American Type Culture Collection (ATCC), organizou uma reunião na Fundação Tropical para Pesquisa e Tecnologia André Tosello, em Campinas, coordenada pela Fundação de Dados Tropicais (BDT), apoiada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e pela ATCC. O objetivo era discutir os métodos utilizados para organizar as informações relacionadas às coleções de cepas. O Professor Jeffrey Jon Shaw, que era diretor adjunto da Unidade de Parasitologia do Wellcome Trust, foi convidado a participar por dois motivos: A Unidade de Parasitologia do Wellcome Trust possuía uma das maiores coleções de Leishmania americana do mundo armazenada em nitrogênio líquido; e a OPAS sabia que a tecnologia da computação estava disponível em Belém, no Instituto Evandro Chagas. Durante a reunião, diferentes sistemas de gerenciamento de dados foram mostrados, bem como meios de comunicação eletrônica por e-mail, um campo completamente desconhecido para a maioria das pessoas presentes.

“Alguns dias depois, a Dra. Lois informou aos participantes sobre os sistemas, que armazenavam e organizavam informações, além de permitirem seu compartilhamento entre os participantes dos grupos especializados. Sua ideia era criar grupos para diferentes temas. Após debaterem o tema, foi decidido que cada grupo se concentraria no parasita que causa uma doença específica e não nas coleções de microorganismos. Muitas possibilidades foram abordadas, incluindo doença de Chagas e malária, mas finalmente decidiram criar um grupo ligado a uma doença estudada por um dos participantes do evento. Foi assim que, em fevereiro de 1992, a leishmaniose foi escolhida”, relembra o Dr. Shaw.

Os participantes retornaram aos seus laboratórios e começaram a colocar em prática o que aprenderam na Oficina de Campinas. Obviamente, a primeira coisa que precisava ser feita era colocar o e-mail no trabalho. Aguardaram ansiosamente a informação de que o sistema estava pronto, mas o e-mail com a notícia não chegou. Assim, em novembro de 1992, o Professor Shaw se ofereceu para agir como ponto de contato, e voltou para Campinas para ajudar a configurar o website (Leishnet) e o boletim eletrônico (Leish-L). O plano que surgiu contemplou a criação de uma página web chamada International Leishmania Network – ILN [Rede Internacional de Leishmaniose]  que apresentaria conteúdos relevantes e links acerca da Leishmania e da leishmaniose. A lista de discussões (Leish-L) era parte do plano. Finalmente, a primeira mensagem foi submetida pela Dra. Dora Anne Lange Canhos, em 28 de junho, de 1993 – 16 meses após a decisão de criar um fórum sobre leishmaniose.

“Diferentemente dos dias atuais, no início dos anos 90 não foi fácil encontrar os endereços eletrônicos dos autores das dissertações científicas, já que não eram incluídos nos artigos e dissertações como são hoje. Nós utilizamos todos os meios possíveis para encontrar os pesquisadores e profissionais da saúde que tivessem interesse em leishmania. Uma vez identificados, enviávamos e-mails convidando para participar da Leish-L, ao tempo que também pedíamos que eles incentivassem outras pessoas a participar também. Além disso, circulamos cartas e documentos nas reuniões científicas e enviamos mensagens de recrutamento para outros fóruns, cujos membros pudessem se interessar pela leishmaniose”, detalha. Ainda segundo o Professor Shaw, a maioria dos membros eram pesquisadores de países desenvolvidos e perceberam que entre os recrutados havia poucos cientistas experientes e de alto nível. “Isso foi decepcionante, já que seriam precisamente aquelas pessoas experientes que poderiam ajudar a garantir a qualidade das discussões. Embora as razões para isso ainda não estejam claras, na época pensamos que nosso fracasso se devia ao fato de os pesquisadores terem suas próprias redes pessoais, ou sentir que Leish-L era de pouca utilidade”, comenta.

O Professor explica que as listas criam comunidades virtuais, e LISTSERV (L-Soft) e MAILMAN (Python) são as ferramentas mais populares hoje em dia usadas para cristalizar a criação dessas comunidades virtuais. “Existem centenas de listas em todos os tópicos imagináveis, com diferentes números de assinantes, de menos de 10 até milhares de pessoas. Uma diferença importante entre as listas de discussão e as listas eletrônicas é que as últimas estão sob responsabilidade dos organizadores, que garantem sua continuidade. Listas de discussão são criadas por pessoas interessadas em determinado tópico e que garantem sua qualidade ao monitorar tanto os participantes como o material divulgado. Isso é especialmente importante, dada a quantidade de mensagens spam que circulam hoje em dia”, observa. Segundo ele, pode ser uma coincidência, mas uma das listas sobre questões biológicas mais antigas, ENTOMOL-L, é liderada por uma organização, a Universidade de Guelph. “Isso talvez sustente o argumento de que listas de discussão sérias devem estar ligadas a uma organização ou sociedade científica para garantir sua longevidade e sucesso”, argumenta.

Questionado sobre as razões do desaparecimento das listas eletrônicas, o professor ressalta que entender por que esse fenômeno ocorre seria muito útil para entender qual seria a melhor maneira de mantê-las ativas e promover a comunicação entre grupos de especialistas, principalmente no campo das ciências biológicas. “Até onde conseguimos determinar, Leish-L foi o primeiro grupo de notícias que lidou com a doença. O que é mais surpreendente é que ele se concentra em um grupo de doenças negligenciadas e alguém poderia pensar que outros grupos de notícias que lidam com câncer ou doenças cardíacas o teriam precedido, mas isso não aconteceu”, completa.

Ele garante que a Leish-L definitivamente não é uma iniciativa idiossincrática, embora consuma muito tempo. A singularidade da Leish-L é oferecer a pessoas, que podem não ter acesso a informações, a oportunidade de se aconselharem com especialistas de qualquer área técnica ou acadêmica ligada às leishmanioses. “Esperamos que, quando chegar a hora de nos aposentarmos, outros continuem moderando com o mesmo entusiasmo que temos diante da lista mais antiga do mundo dedicada a um grupo de patógenos diversificados e importantes”, finaliza.

 

Contudo, não é necessário ser assinante da lista para enviar uma pergunta. Qualquer dúvida será respondida diretamente a quem perguntou e também estará disponível nos arquivos da lista.