O Brasil está preparado para enfrentar a febre amarela?

Publicação: 7 de março de 2018

A Dra. Marta Heloisa Lopes afirma que apesar das dificuldades, estamos enfrentando o atual surto de febre amarela silvestre

Estão sendo desenvolvidos estudos mapeando a progressão do vírus e antecipando a vacinação em áreas de risco evitando a sua entrada nessas áreas

A Professora Associada do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Marta Heloisa Lopes, lembra que o Brasil é o maior produtor mundial de vacina de febre amarela e, diferente do que aconteceu na África, em 2016, estamos enfrentando um surto de febre amarela silvestre, e não urbana. “Temos condições e estamos desenvolvendo, em São Paulo, estudos mapeando a progressão do vírus e antecipando a vacinação em áreas de risco, antes da entrada do vírus nessas áreas. Estão sendo vacinadas pessoas que vivem ou se dirigem às áreas de mata, rurais e periurbanas, onde há possibilidade de circulação dos vetores silvestres de transmissão”, esclarece. Ainda segundo a especialista, é inegável que existam problemas nos serviços públicos de saúde, entretanto há equipes dedicadas e compromissadas que trabalham incansavelmente: tanto na prevenção, quanto no atendimento dos casos de doença. “Estamos introduzindo novas modalidades terapêuticas, como os transplantes hepáticos, e testando drogas antivirais. Temos muitas dificuldades, mas estamos enfrentando o atual surto de febre amarela silvestre brasileira”, acrescenta.

A Dra. Marta Heloísa, que também é representante da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) no Comitê Técnico Assessor em Imunizações (CTAI) do Programa Nacional de Imunização (PNI) do Ministério da Saúde do Brasil, enfatiza que a preocupação com vacinação, de um modo geral, deve ser rotineira e não se restringir aos momentos particulares de campanhas. “Temos, no Brasil, um calendário de vacinação que contempla todas as faixas etárias. Vacinas seguras e eficazes são distribuídas gratuitamente em todo o País, para toda a população. Porém, grande número de pessoas, principalmente adultos, só procuram as unidades básicas de saúde, onde se localizam as salas de vacinas, em situações em que há aumento do número de casos, como, por exemplo, de influenza ou atualmente febre amarela, e não se preocupam em atualizar seus esquemas de vacinação. A atenção com as medidas de prevenção em relação às doenças, entre as quais a vacinação, deve ser constante, e não esporádica”, atenta.

Dose fracionada apresenta mesma capacidade de imunização que a integral

Apesar de o governo brasileiro ressaltar desde o início que a dose fracionada da vacina de febre amarela mostrava exatamente a mesma capacidade de imunização que a dose integral, houve muita especulação sobre o assunto. Em fevereiro, um artigo publicado na revista científica “New England Journal of Medicine” ganhou repercussão internacional ao mostrar, mais uma vez, que a dose fracionada da vacina estimula resposta imune adequada. O artigo de Ahuka-Mundeke e colaboradores analisou a resposta a 0,1 mL da vacina em 716 pessoas, maiores de 2 anos de idade, vacinadas em Kinshasa, na República Democrática do Congo, encontrando 98% de positividade após a vacinação, ou seja, essa dose foi efetiva em estimular resposta de anticorpos nos vacinados.

A Dra. Marta Heloisa detalha que estudos brasileiros prévios já haviam demonstrado que doses fracionadas da vacina eram imunogênicas e seguras. “Estudos conduzidos por pesquisadores da Fiocruz, publicados em 2013 (Martins RM et al. 17DD Yellow fever vaccine: a double blind, randomized clinical trial of immunogenicity and safety on a dose-response study. Hum Vaccin Immunother 2013; 9:879-88) e em 2014 (Campi-Azevedo et al. Subdoses of 17DD yellow fever vaccine elicit equivalent virological/immunological kinetics timeline. BMC Infectious Diseases 2014, 14:391), demonstravam que subdoses da vacina podiam ser adequadas para imunização”, assinala.

A especialista lembra ainda que em artigo publicado em 2016, Monath e colaboradores, entre eles o Dr. Reinaldo Martins, pesquisador brasileiro da Fiocruz, apontavam que poderia ser considerado o uso de 0,1 mL da vacina (dose fracionada equivalente a um quinto da dose padrão), como possível solução para o abastecimento. (Thomas P Monath, Jack P Woodall, Duane J Gubler,Thomas M Yuill, John S Mackenzie, Reinaldo M Martins, Paul Reiter, *David L Heymann. www.thelancet.com Vol 387 April 16, 2016).

Informações corretas contribuem conscientização da população e adesão à vacinação

A divulgação de informações corretas, sem causar pânico, colabora para melhor aceitação das medidas propostas pelas autoridades de saúde pública. Para a Dra. Marta Heloísa, a divulgação, pelos diferentes meios de comunicação, incluindo as redes sociais, de informações corretas, que mostrem confiança nas medidas adotadas pode contribuir mais efetivamente à conscientização da população, e consequente maior adesão à vacinação.

Na opinião da especialista ainda é muito precoce apontar que as campanhas de vacinação, mais especificamente no Rio de Janeiro e em São Paulo, com foco na dose fracionada, estão longe de atingirem a meta proposta. Para ela, a vacinação vem ocorrendo e novas áreas de recomendação de vacinação estão sendo incorporadas às inicialmente propostas. “Esta estratégia é baseada em estudos conduzidos em São Paulo, que mapeiam a progressão dos vírus nos chamados corredores ecológicos. Assim, propõe-se a vacinação da população de áreas de risco antes da provável chegada do vírus. Além disso, deve-se continuar fazendo o que estado e municípios vêm realizando: vacinação casa a casa nas áreas de matas, de maior risco e mais difícil acesso aos serviços de saúde”, finaliza.