Aplicativo disponível na internet pode ajudar no controle de doenças, destaca Dra. Claire J. Standley

Publicação: 13 de junho de 2018

Achamos que essa ferramenta seja uma prova de que é possível se criar uma ferramenta de fácil utilização capazes de colocar as melhores evidências científicas nas mãos das pessoas que de fato utilizam informações para melhorar o controle de doenças

Malária e esquistossomose são frequentemente co-endêmicas e impactam as mesmas populações, com crianças em um risco maior de adquirirem as duas doenças

Artigo publicado recentemente na revista PLoS Neglected Tropical Diseases intitulado Decision support for evidence-based integration of disease control: A proof of concept for malaria and schistosomiasis apresenta o desenvolvimento de um aplicativo disponível na Internet. A ferramenta permite que o usuário insira informações sobre a estrutura demográfica de sua população (em qualquer escala- pode ser um país, uma província, um estado, etc.), alguns parâmetros epidemiológicos básicos sobre a endemicidade de esquistossomose e malária (como a prevalência de esquistossomose na área, estimativa de picadas em malária, sazonalidade da transmissão de malária, etc.), o tipo de intervenções no local e quando estas intervenções são realizadas ao longo do ano. A ferramenta foi criada pela professora assistente de pesquisa do Centro de Ciência e Segurança da Saúde Global (CGHSS) da Georgetown, Dra. Claire J. Standley, juntamente com um grupo de pesquisadores de Saúde Global, sediado no Centro Médico da Universidade de Georgetown.

Para saber mais sobre o assunto, a assessoria de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) conversou com a Dra. Claire J. Standley. Confira a entrevista na íntegra.

SBMT: Como surgiu a ideia deste aplicativo na internet?

Dra. Claire J. Standley: Nós queríamos criar uma plataforma simples e gratuita para todos os potenciais usuários, como centros de controle de doenças nacionais ou estaduais. Dessa forma, decidimos que publicar na internet seria uma forma de fazê-lo, bem como uma forma de obter feedback da comunidade científica e de órgãos de políticas públicas acerca da utilidade e aplicabilidade da ferramenta.

SBMT: Como funciona?

Dra. Claire J. Standley: A ferramenta permite que o usuário insira informações sobre a estrutura demográfica de sua população (em qualquer escala- pode ser um país, uma província, um estado, etc.), alguns parâmetros epidemiológicos básicos sobre a endemicidade de esquistossomose e malária (como a prevalência de esquistossomose na área, estimativa de picadas em malária, sazonalidade da transmissão de malária, etc.), o tipo de intervenções no local e quando estas intervenções são realizadas ao longo do ano. A ferramenta então utiliza um modelo matemático complexo baseado nas melhores informações científicas disponíveis, para calcular se seria benéfico, do ponto de vista epidemiológico (medido em termos de prevalência), se integrar intervenções contra malária e esquistossomose naquele local. A ferramenta também fornece recomendações sobre como estas intervenções seriam melhor integradas de forma temporal, para que o benefício epidemiológico seja máximo.

SBMT: Em relação a doenças infecciosas endêmicas e emergentes, como essa ferramenta pode ajudar?

Dra. Claire J. Standley: Achamos que essa ferramenta seja uma prova de que é possível se criar uma ferramenta de fácil utilização capazes de colocar as melhores evidências científicas nas mãos das pessoas que de fato utilizam informações para melhorar o controle de doenças. Se fala muito sobre os benefícios da integração, mas se faz muito pouco para garantir que uma integração à frente de seu tempo tenha de fato um benefício para uma dada comunidade ou população. Apesar de ser ainda apenas um protótipo focado em uma interação específica entre malária e esquistossomose, nós esperamos expandi-la para incorporar outros aspectos de integração como custo e alocação de recursos, que são elementos críticos para a integração de esforços. Finalmente, enquanto essa ferramenta em particular é focada em malária e esquistossomose, teoricamente a mesma abordagem pode ser utilizada para avaliar a integração de medidas de controle contra quaisquer doenças.

SBMT: Ao trabalhar com dados de países na África Subsaariana e do Oriente Médio, apresentamos um método inovador e um protótipo de uma ferramenta capaz de orientar como otimizar a integração do controle de doenças de transmissão vertical. Fale um pouco sobre isso.

Dra. Claire J. Standley: Como eu disse acima, nosso propósito era formar profissionais de controle de doenças e tomadores de decisão a nível nacional ou mesmo subnacional com uma abordagem baseada em evidências para integração de doenças. Em vez de apenas integrar programas de controle de doenças e esperar que o resultado seja benéfico, nossa feramente permite que tenhamos uma abordagem mais deliberativa e quantificável. Além disso, pode ser uma referência de comparação para ajustar os esforços de monitoramento e controle, uma vez que a integração seja implementada. Nossos colegas na África subsaariana e no Oriente Médio tem sido muito generosos ao fornecer informações sobre controle de doenças em seus países para desenvolvermos nossa ferramenta, e também ao contribuir com revisões e sugestões sobre o conceito e sua aplicabilidade.

SBMT: Por que escolheram esquistossomose e malária?

Dra. Claire J. Standley: Escolhemos essas duas doenças por várias razões. Primeiramente, elas são frequentemente co-endêmicas, e também impactam as mesmas populações, com crianças em um risco maior de adquirirem as duas doenças. Isso significa que a taxa de confecção é alta em vários lugares do mundo. Em segundo, a esquistossomose é uma doença tropical negligenciada, o que significa que não recebe o mesmo financiamento ou atenção internacional que outras doenças proeminentes, como a malária. Nós pensamos que ao demonstrar os benefícios de integrar uma doença tropical negligenciada como a esquistossomose com uma doença que tenha mais investimentos, como a malária, nós poderíamos demonstrar oportunidades para voltar as atenções globais e recursos das principais doenças para aquelas menos conhecidas, com benefício por controlar as duas.

SBMT: Um dos maiores desafios para eliminar a malária é, por exemplo, determinar quais medidas de controle devem ser usadas, além de onde e como fazer isso. Essa ferramenta será capaz de prever tais variáveis?

Dra. Claire J. Standley: A ferramenta depende de informações inseridas pelo usuário para determinar o tipo de intervenções disponíveis, já que a ideia é prever o benefício potencial de integrar programas de controle já existentes ao invés de auxiliar na criação de novos. Contudo, a ferramenta dará a orientação no cronograma das intervenções em curso, dentro do contexto da integração, para determinar se essas intervenções podem ser otimizadas ao longo do ano para um benefício epidemiológico máximo contra as doenças em questão.

SBMT: No caso da esquistossomose, você acha que essa ferramenta pode auxiliar no planejamento de políticas públicas com o intuito de eliminar essa parasitose enquanto um problema de saúde pública?

Dra. Claire J. Standley: Quanto ao protótipo, nós focamos principalmente na prevalência da malária como resultado do teste, com administração de medicamentos em massa como intervenção primária contra esquistossomose. A ferramenta não examina atualmente como intervenções de controle de malária poderiam impactar na infecção ou transmissão de esquistossomose. Contudo, isso é algo que nós gostaríamos de acrescentar no futuro, caso tenhamos oportunidade (e financiamento) de expandir a ferramenta e realizar estudos de campo.

SBMT: Os resultados da ferramenta de auxílio à tomada de decisão também demonstram algumas condições sob as quais não haveria benefícios epidemiológicos relevantes. Qual a razão disso?

Dra. Claire J. Standley: A primeira razão é por que definimos um intervalo para a “relevância” dos benefícios epidemiológicos como uma redução na prevalência da malária em 5% ou mais. Então, em alguns casos pode haver uma redução antecipada de 2% ou 3% na prevalência de malária, mas não consideramos isso como relevante. Talvez a ocorrência ou não de benefícios epidemiológicos dependa do contexto local. De acordo com a época de transmissão de malária e a força da infecção, o tratamento com esquistossomose teria um impacto maior ou menor no risco de infecção de malária e auxiliaria na determinação do impacto (caso exista) do benefício da integração.

SBMT: Quais são os próximos passos?

Dra. Claire J. Standley: Esse trabalho foi financiado por uma verba do Fundo de Exploração de Grandes Desafios, da Fundação Bill e Melinda Gates, a quem somos imensamente gratos, já que permitiram que nós criássemos esse modelo e demonstrássemos o valor da ferramenta como prova de conceito. Contudo, nós reconhecemos que ainda há muito a ser feito para tornar essa ferramenta o mais útil possível para a comunidade de controle de doenças. Como eu disse, seria ótimo expandir a ferramenta para considerar a esquistossomose em mais detalhes, bem como inserir um componente de custo e recursos, para abordar as economias em financiamentos e recursos em decorrência da integração. Por último, nós gostaríamos de realizar ensaios experimentais em diferentes lugares que sejam co-endemicos para esquistossomose e malária, a fim de avaliar até onde nossa ferramenta prevê a realidade, se as recomendações são seguiras em situações reais. Temos parceiros em Uganda e Mali que estão ansiosos para colaborar conosco, bem como nós estamos em busca de financiadores que estejam interessados nesse trabalho adicional.

SBMT: A senhora gostaria de acrescentar alguma informação que considera importante e que não tenha sido contemplada acima?

Dra. Claire J. Standley: Obrigado pela oportunidade de falar sobre nossa ferramenta!