Infecção pelos vírus Rocio e Saint Louis podem se tornar emergentes no Brasil

Publicação: 14 de outubro de 2017

Para o pesquisador e professor da USP de Ribeirão Preto, Luiz Tadeu Figueiredo, epidemias por outros arbovírus podem estar acontecendo e os casos sendo confundidos com dengue

O professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP Luiz Tadeu Figueiredo acredita que o vírus da encefalite de Saint Louis e provavelmente o Rocio sempre tenham estado pelo Brasil produzindo casos esporádicos ou pequenos surtos que são confundidos com dengue

As arboviroses são um grave problema de saúde pública no País. O risco para a emergência de novos arbovirus no Brasil relaciona-se à existência de cidades grandes, populosas e infestadas por mosquitos Culex (conhecido como pernilongo ou muriçoca), bem como pelo Aedes aegypti. Entre os arbovírus brasileiros, os vírus Mayaro, Dengue, Febre Amarela, Rocio e Oropouche (OROV) são responsáveis por mais de 95% dos casos de arboviroses humanas.

Entre as encefalites que ocorrem no Brasil, assumem grande importância o Rocio e o vírus da Encefalite de Saint Louis. Ambos são flavivírus (relacionados aos vírus dengue e febre amarela) que causam encefalite. O vírus da Encefalite de Saint Louis, transmitido pela picada de mosquitos Culex, tem causado surtos na América do Norte e mais recentemente na Argentina. No Brasil, casos da virose foram confirmados na Amazônia principalmente no estado do Pará e no estado de São Paulo, sendo que os casos foram de quadros febris “dengue símile” e de meningite.

Especialista em flavivírus, o infectologista Luiz Tadeu Figueiredo, do Centro de Pesquisa em Virologia da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, identificou com os colegas locais uma epidemia do vírus da Encefalite Saint Louis em São José do Rio Preto. Em relação ao Rocio, vírus que causa meningoencefalites, o médico tem coletado evidências de que ele pode voltar. “Acredito que o vírus da encefalite de Saint Louis e provavelmente o Rocio sempre tenham estado pelo Brasil produzindo casos esporádicos ou pequenos surtos que são confundidos com dengue” adverte ao observar que seguramente os sintomas febrís agudos causados por estes vírus devem ser confundidos com dengue e eventualmente até métodos laboratoriais podem dar reação cruzada com dengue.

Segundo o professor é preciso diagnosticar o vírus causador da grande maioria das infecções virais do sistema nervoso central. Ele explica que as pessoas com a imunidade debilitada por outra doença ou, inclusive pela senilidade e também pessoas com doenças prévias do sistema nervoso central são mais susceptíveis a meningoencefalites por estes vírus. Em sua opinião, a forma de evitar que essas doenças se espalhem é lembrar que existem estes vírus e a doença que eles causam, bem como disseminar métodos diagnósticos em laboratórios para detectar os casos. “Também se faz necessária vigilância, já que o gatilho para a infecção é o homem”, ressalta ao advertir que os profissionais de saúde não estão informados sobre estas viroses e que não há expectativa de vacinas a curto ou em médio prazo.

Os primeiros casos registrados de vítimas humanas do vírus Rocio no Brasil surgiram durante uma epidemia de encefalite que durou mais de dois anos, na década de 1970, na região Sudeste. As primeiras infecções foram reportadas no Vale do Ribeira e na Baixada Santista por volta de 1974. Foram detectados 1.021 casos de encefalite pelo arbovírus, com incidência maior em homens jovens; 100 mortes, e mais de 200 pacientes sobreviveram com graves sequelas. A epidemiologia da doença permanece um mistério, assim como as causas de aparecimento e desaparecimento do Rocio. A possibilidade de uma nova epidemia tem motivado pesquisadores a buscar os mecanismos de infecção e invasão dos flavivírus. “Temos estudos experimentais em camundongos mostrando como se comporta a infecção do sistema nervoso central por Rocio”, finaliza o infectologista.