Aumento da incidência de sífilis: profissionais devem ficar atentos ao diagnóstico e prevenção

Publicação: 9 de novembro de 2018

Em 2016, foram notificados 87.593 casos de sífilis adquirida, 20.474 casos de sífilis congênita e 37.436 casos de sífilis em gestantes

Nos últimos anos houve um crescimento inesperado dos números de sífilis adquirida no Brasil, porém os casos de sífilis congênita são, atualmente, os mais preocupantes

No dia 19 de outubro foi comemorado o “Dia Nacional de Combate à Sífilis”, mas infelizmente não temos muito a comemorar. Tão silenciosa quanto perigosa, a doença continua a se espalhar preocupando médicos e autoridades. De acordo com o Boletim Epidemiológico 2017 da Sífilis, do Ministério da Saúde, no ano de 2016, foram notificados 87.593 casos de sífilis adquirida, 20.474 casos de sífilis congênita e 37.436 casos de sífilis em gestantes. No Piauí, por exemplo, houve 272 notificações de gestantes com sífilis em 2016, número que aumentou para 341 no ano seguinte e 447 até outubro de 2018. Os números demonstram que em dois anos houve aumento de mais de 60% dos casos de mulheres grávidas infectadas no estado.

A coordenadora de Doenças Transmissíveis do Estado do Piauí, Dra. Karinna Amorim, atribui que o desabastecimento da medicação ocorrido cerca de três anos atrás pode ter contribuído para o aumento de casos. “No entanto, mesmo com o problema sanado da medicação, ainda observa-se aumento na disseminação da doença. Então, o aumento também pode estar associado à falta de conscientização da sociedade sobre a situação da sífilis, que ainda permeia negligenciada. “A sociedade precisa perceber a situação de epidemia que vivemos e adotar medidas conjuntas de enfrentamento da sífilis e criar mecanismos para atender demandas especificas de vulnerabilidades. Urge intensificar esforços no sentido de controlar a disseminação doença, que apesar de diagnóstico simples e tratamento de baixo custo, ainda se caracteriza com grandes desafios”, destaca.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma análise feita em 2017 mostrou que mais de 20 países, incluindo Estados Unidos, Canadá, África do Sul, Austrália e o Brasil, vêm enfrentando uma escassez de penicilina benzatina.

Sífilis ainda desafia políticas públicas de prevenção

A Dra. Karinna ressalta que apesar dos avanços obtidos, a doença ainda permeia como um desafio, onde deve-se centrar esforços mútuos e priorização política. “É impressionante e preocupante como algumas pessoas pensam que sífilis não existe mais, outros ainda acham que ela não tem cura”, alerta.

A coordenadora explica que por ser de transmissão essencialmente sexual, a atuação dos profissionais de saúde no âmbito da prevenção muitas vezes se depara com limitações, pois a doença está relacionada a fatores comportamentais e vulnerabilidades individuais e sociais. “Há necessidade da autopercepção de vulnerabilidade por parte das pessoas, onde possam se sentir responsáveis por sua saúde e como sujeito de direitos possam se conscientizarem e se perceberem em risco para que essa reflexão possa levar a adotar comportamentos seguros como o uso do preservativo nas relações sexuais, além da rotina de realizar exame para detecção precoce da doença”, observa.

Nos últimos anos houve um crescimento inesperado dos números de sífilis adquirida no País, porém os casos de sífilis congênita são, atualmente, os mais preocupantes para a medicina. Dados da OMS apontam que 25% das grávidas que têm a doença sofrem aborto espontâneo ou dão à luz bebês natimortos. No Brasil, esta é a segunda causa de morte de bebês, atrás apenas dos óbitos por malformações genéticas. De acordo com o Boletim Epidemiológico 2017 da Sífilis, do Ministério da Saúde, na América Latina e no Caribe, estima-se que entre 166.000 e 344.000 crianças nasçam com sífilis congênita anualmente.

“É preciso reconhecer a sífilis congênita como um grave problema de saúde pública. Esse é um indicador de pré-natal frágil, entende-se que esse acompanhamento não está adequado, ou seja, as gestantes não estão realizando diagnóstico precoce, muito menos tratando”, assinala a Dra. Karinna. Para ela, é preciso melhorar o acesso ao diagnóstico ampliando a oferta de exame especialmente por meio do teste rápido e facilitar o tratamento oportuno no próprio local do diagnóstico.

Sífilis ocular também cresce no Brasil

Estudo publicado em agosto na revista Nature Scientific Reports chama atenção para um aumento preocupante também nos casos de sífilis ocular. No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP, por exemplo, até 2012 era identificado um caso de sífilis ocular por ano. A partir de 2013, esse número passou para oito. O aumento também foi verificado em outras partes no mundo, como Estados Unidos e Europa. Relatos mais recentes descrevem coortes de até 85 pacientes com sífilis ocular nos Estados Unidos, Europa e Austrália. As descobertas são um reflexo do ressurgimento desta doença infecciosa em todo o mundo.

Na opinião da Dra. Karinna, isso se deve à falta de informação e conscientização. “Como alertei anteriormente, sífilis é doença negligenciada tanto pela população que não busca meios de prevenção e diagnóstico, como por profissionais de saúde que não suspeitam e por isso não investigam sífilis disseminada como a ocular, onde o diagnóstico incorreto atrasa o tratamento e pode causar dano permanente à visão”, elucida.

Ações estratégicas para redução da sífilis no País

Em outubro de 2016, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) fortaleceu o apoio ao Brasil no combate à sífilis com a assinatura da “Carta de Compromisso”, que estabeleceu ações estratégicas para redução da sífilis congênita no País, com prazo previsto de um ano. De acordo com a Dra. Karinna, de lá para cá houve excelentes resultados a curto prazo e ela acredita que os demais virão a médio e longo prazo. “Muito precisa ser feito para o controle da epidemia, mas os avanços já são notáveis, especialmente no contexto do diagnóstico e do tratamento”, atesta.

Apesar de ser uma doença predominante em países em desenvolvimento, especialmente pelas vulnerabilidades individual, social e programática, a sífilis está reemergindo, principalmente em países industrializados. “No entanto, como hoje existe um surto da doença no mundo inteiro, outras populações também experimentam esse momento de epidemia. Acredita-se que ela esteja relacionada aos aspectos sociais e culturais”, finaliza a coordenadora de Doenças Transmissíveis do Estado do Piauí.