Hepatite C: Novo protocolo deve ajudar na eliminação da doença, destaca Dr. Raymundo Paraná

Publicação: 9 de abril de 2018

Protocolo anterior limitava o tratamento a pacientes com fibrose moderada ou avançada, enquanto o atual permite o tratamento universal

Brasil tem como desafio ampliar o acesso dos pacientes ao diagnóstico, pois a taxa, embora crescente, ainda está abaixo do esperado

Publicada recentemente no Diário Oficial da União (DOU), a atualização do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas das Hepatites Virais representa, na opinião do Hepatologista Dr. Raymundo Paraná, maior acesso, facilidade de tratamento e chances de cura superiores a 90%. Segundo ele, há uma mudança de paradigma que também implicará na possibilidade do Brasil eliminar a hepatite C no futuro, pelo menos como um problema de saúde pública.

Esse protocolo terapêutico trás a inclusão de novos esquemas como também amplia o acesso ao diagnóstico e ao tratamento dos pacientes. “O anterior limitava o tratamento a pacientes com fibrose moderada ou avançada, enquanto o atual permite o tratamento universal. Este aspecto tem particular implicação nos nossos Centros de Referência que estão superlotados de pacientes com hepatite C, os quais, agora, tratados e curados, poderão ter alta, permitindo assim a maior rotatividade e ampliando o acesso de pacientes com doença crônica de fígado ou outras etiologias aos ambulatórios públicos”, explica o médico.

Para o especialista, a simplificação dos esquemas terapêuticos e a facilidade de manejo dos pacientes, pela pouca repercussão dos efeitos adversos dos medicamentos, são fatores que devem permitir prever uma rápida implementação do protocolo. Ainda segundo o Dr. Paraná, ainda é preciso enfrentar a ampliação do número de Centros de Referência e a ampliação da responsabilidade pelo tratamento aos médicos da Assistência Básica. Em sua opinião, os pacientes que têm doença hepática leve pela hepatite C podem ser manejados por médicos clínicos ou outras especialidades.

Como mais uma forma de garantir amplo acesso ao tratamento de hepatites, o governo tem a expectativa de tratar 657 mil pessoas nos próximos anos para hepatite C, sendo que o tratamento deve ser ofertado para mais 50 mil pessoas ainda em 2018. Para o Dr. Paraná, isso possível, uma vez que o Brasil já trata um número bastante substancial de pacientes, alcançando 30 mil por ano. “Ademais, os pacientes que tratamos hoje são mais complexos, ou seja, os casos menos difíceis pouco acrescentarão à complexidade e ao trabalho dos nossos Centros de Referência. O problema do Brasil não é onde tratar, nem como tratar, mas como diagnosticar mais pacientes com doença leve para que os mesmos possam ser beneficiados no tratamento”, explica.

Sobre a meta do Brasil de eliminar a doença até 2030, o Hepatologista afirma que ainda é cedo para atestar a viabilidade desta meta, mas admite que o País tem como desafio ampliar o acesso ao diagnóstico dos pacientes, uma vez que essa taxa, embora crescente, ainda está abaixo do esperado. Para ele, a implementação dos testes rápidos no Sistema Único de Saúde (SUS) pode representar a oferta universalizada do serviço na Assistência Básica. “A eliminação da hepatite C pode ocorrer quando diagnóstico e tratamento estiverem disponíveis na Assistência Básica, concentrando ali os pacientes com a doença leve”, acrescenta.

Situação atual das hepatites

Estima-se que o Brasil tenha em torno de um milhão e quatrocentos mil indivíduos infectados, sendo que o diagnóstico tenha sido realizado em apenas 20% deste total. Os casos novos de hepatite C atualmente são raros e restritos a alguns grupos de risco, mas ainda assim são diagnosticados pacientes que contraíram a doença nas décadas de 60, 70, 80 e inicio da década de 90. Para o Dr. Paraná, o grande desafio é lidar com uma doença assintomática e que precisa ser rastreada por todos os médicos, independente, da sua especialidade. “Enquanto não tivermos esta cultura de rastreamento do antiHCV universalmente em nossa população, sobretudo naqueles acima de 50 anos, teremos dificuldades em ampliar o acesso ao diagnostico e, por consequência ao tratamento”, alerta.

O médico também destaca o valoroso progresso apresentando no enfrentamento da doença, desde a implementação do Programa Nacional de Hepatites Virais, em 2003. “Ainda temos muitos problemas em relação às hepatites (C, B e D), como também necessitamos conhecer a realidade da hepatite E. Para ele, o problema da hepatite C já foi bastante resolvido com o protocolo atual e deverá apresentar ampliação do escopo de opções terapêuticas em um futuro próximo, com novos esquemas terapêuticos, particularmente àqueles que resgatam os poucos pacientes que não responderam ao esquema atual. “Por outro lado, há o desafio do enfrentamento da hepatite B e, sobretudo, da hepatite Delta, nas regiões mais isoladas. Esses são desafios para as autoridades de saúde do País, como também para as sociedades médicas de especialidade (Infectologia, Medicina Tropical e Hepatologia)”, enfatiza.