Vacina verde custará 10 a 50 vezes menos do que as convencionais, diz o pesquisador Dr. Sergio Rosales Mendoza

Publicação: 12 de setembro de 2018

Vacinas tradicionais são produzidas com métodos caros que envolvem cultivo e infraestrutura sofisticada

O objetivo é desenvolver vacinas verdes estáveis que não necessitem de refrigeração, garantindo sua disponibilidade em países pobres

Em um projeto colaborativo, especialistas trabalham na viabilidade de “vacinas verdes”, que são obtidas em células vegetais modificadas por técnicas de engenharia genética. Desta forma a célula vegetal produz uma proteína específica de um agente infeccioso, tornando-se capaz de induzir, após a ingestão, uma resposta imune para defender o corpo de uma doença. A ideia foi concebida nos Estados Unidos na década de 1990, e usada por vários grupos de pesquisa ao redor do mundo. “Os médicos Ruy Curtis e Guy Cardineau patentearam esta tecnologia, abrindo as portas para o desenvolvimento de vacinas atraentes em benefício da saúde global”, explica o pesquisador Dr. Sergio Rosales Mendoza.

A produção de vacinas verdes requer (i) aplicação de imunologia para escolher uma proteína (antígeno) capaz de ativar o sistema imunológico quando administrada por via oral; (ii) realizar abordagens de engenharia genética para desenvolver células de vegetais capazes de produzir a vacina; e (iii) utilizar processos de tecnologia farmacêutica para produzir o material vegetal sob boas práticas de fabricação para obtenção de um produto que atenda às normas sanitárias. “O objetivo é desenvolver vacinas verdes estáveis que não necessitem de refrigeração, garantindo assim a cobertura vacinal adequada nos países pobres,” acrescenta.

Diferentes grupos ao redor do mundo estão criando plataformas para a produção de vacinas verdes sob as boas práticas de fabricação. Atualmente, as empresas nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Reino Unido e Israel estão desenvolvendo e refinando as plataformas para produzir este tipo de vacinas em larga escala. “No México, conduzem pesquisa básica, com foco na validação de conceito para então construir alianças com parceiros industriais interessados em utilizar essas tecnologias,” destaca o pesquisador ao afirmar que a produção em grande escala ainda levará algum tempo. Espera-se que em um período de 10 anos os processos de aprovação tenham conseguido obter a autorização para o uso das vacinas em humanos. Ainda de acordo com ele, no Canadá e Estados Unidos, há empresas produzindo e avaliando vacinas verdes contra a gripe, que poderia ser a primeira a ser comercializada em forma injetável.

Sobre a resistência do mercado farmacêutico tradicional, o Dr. Rosales entende que isso seja esperado, já que a indústria tende a acompanhar os sistemas convencionais. “Em vista disto, é preciso procurar alternativas para a exploração das vacinas verdes, por exemplo, organizações sem fins lucrativos, em parceria com universidades e institutos de investigação públicos poderiam desenvolver alianças a produção e uso destas vacinas em benefício do setor da saúde”, atenta. Para ele, isso será especialmente necessário no caso das vacinas contra doenças que não representam um investimento atraente para a indústria, por exemplo, aquelas que afetam apenas os países em desenvolvimento. Surpreendentemente, estima-se que as vacinas verdes venham a custar menos do que as vacinas tradicionais. Segundo o Dr. Rosales, a vacina verde vai custar de 10 a 50 vezes menos do que as convencionais, devido aos materiais de baixo custo usados na produção e na infraestrutura relativamente simples necessária para sua produção, distribuição e entrega.

O Dr. Rosales, que é professor na Universidad Autonoma de San Luis Potosí (UASLP), aposta nos benefícios exclusivos das vacinas verdes, entre eles: eles têm custos de produção muito baixos, já que o material vegetal é obtido com uma infraestrutura mais simples do que a usada por tecnologias convencionais; as vacinas verdes não exigiriam refrigeração para armazenamento e distribuição, uma vez que são produzidos na forma de comprimidos ou cápsulas estáveis à temperatura ambiente. Além disso, as vacinas verdes podem ser administradas por via oral, evitando o uso de seringas estéreis e a necessidade de pessoal treinado para aplicá-las. Outra vantagem é a alta segurança que as plantas oferecem para a produção de vacinas, já que não replicam agentes infecciosos para os seres humanos ou não contém toxinas, em comparação com alguns métodos tradicionais, onde pode ocorrer contaminação por endotoxinas, vírus ou priões. “Por outro lado, estas vacinas não contêm patógenos inteiros, que, no caso de algumas vacinas convencionais, conferem o risco de desenvolver a infecção”, acrescenta.

Como acontece a extração

A planta de produção de vacinas é processada e tem seus tecidos ressecados. A ideia é que as cápsulas ou comprimidos que contêm o material de planta ressecada são preparados e, quando ingeridos, liberam a proteína (antígeno) que será detectada pelo sistema imunológico intestinal com uma consequente indução de resposta imune. “Outra alternativa é purificar o antígeno e criar formulações injetáveis, porém, isto aumenta o custo da vacina, já que esse processo de purificação é mais caro e exige seringas esterilizadas e pessoal treinado para sua aplicação”, justifica.

Efeitos colaterais

O Dr. Rosales lembra que todos os medicamentos são cuidadosamente avaliados em relação à segurança antes de ser autorizado para uso humano, a fim de minimizar os efeitos adversos que podem ocorrer entre a população. Algumas vacinas produzidas com vírus atenuados têm o risco de desenvolver efeitos colaterais (infecção), porém, a frequência é muito baixa. “No caso das vacinas verdes, não existem microrganismos na formulação, que só contém material vegetal, de forma que os riscos associados a estes organismos são eliminados. No entanto, vacinas verdes devem ser validadas em relação à sua segurança em diferentes níveis, o que já está em andamento”, enfatiza.

Questionado se as pessoas alérgicas poderiam utilizar vacinas verdes, ele esclarece que a limitação seria para pacientes alérgicos à planta usada para produzir a vacina.

As vacinas verdes poderiam ter uma nova aceitação entre movimentos anti-vacinais?

Para o especialista, a principal luta contra movimentos anti-vacina deve ser baseada na disseminação do conhecimento, de forma que o usuário seja capaz de ter uma visão assertiva das tecnologias, logo, capaz de compreender suas fundações, bem como os riscos e os grandes benefícios para a população. “Vacinas verdes fornecem uma série de vantagens que poderia fazer delas uma tecnologia amplamente aceita na sociedade, já que não contém conservantes químicos, vírus ou bactérias que trazem o risco de desenvolver uma infecção”, conclui.