Estudo com participação de pesquisador brasileiro traz luz à futura vacina contra malária vivax

Publicação: 14 de fevereiro de 2018

Descoberta de uma nova via de entrada na hemácia muda o que se sabia em relação a P. vivax

Futuramente a PvRBP2b deve ser vista como um importante candidato para o desenvolvimento de vacinas contra a malária vivax

Marcelo Urbano Ferreira, um dos principais especialistas em malária no Brasil, é um dos pesquisadores que participam do estudo publicado recentemente na revista Science intitulado “Transferrin receptor 1 is a reticulocyte-specific receptor forPlasmodium vivax”. O trabalho mostra que anticorpos contra PvRBP2b bloqueiam parcialmente a invasão de reticulócitos por P. vivax, sugerindo um alvo interessante para o desenvolvimento de vacinas. Para o teste de anticorpos, foram utilizados parasitos obtidos de pacientes do Brasil e da Tailândia. Com eles, obteve-se até 64% de inibição da invasão de reticulócitos in vitro.

De acordo com o Dr. Ferreira, até o momento, sabia-se que o Plasmodium vivax invade preferencialmente reticulócitos, especialmente aqueles bem jovens, que ainda expressam o receptor de transferrina-1 (TfR1), também conhecido como CD71, em sua superfície. “O que esse trabalho traz de novo é a identificação de TfR1 como um receptor para a entrada de merozoítos de P. vivax em reticulócitos, explicando assim sua preferência por esse tipo celular” detalha. Além disso, o trabalho identifica a molécula de P. vivax que interage com TfR1 no processo de invasão; trata-se de uma das proteínas de ligação em reticulócitos de P. vivax (reticulocyte binding proteins, PvRBP) conhecida como PvRBP2b.

Para o pesquisador, a larga colaboração internacional contribuiu para este achado inovador. A parte principal do trabalho foi realizada na Austrália, pelo grupo capitaneado pela Dra. Wai-Hong Tham, a quem cabe o mérito pela descoberta. Os demais colaboradores participaram de etapas específicas do trabalho delineado por ela. “Junto com o grupo do Dr. Manoj Duraisingh, da Escola de Saúde Pública de Harvard (também co-autor do artigo), temos aprimorado estratégias de cultivo de curto prazo de P. vivax in vitro, para uso em ensaios de re-invasão de reticulócitos. Esses ensaios foram importantes para mostrar o efeito inibitório de anticorpos anti-PvRBP2b no processo de invasão”, completa.

O grupo do Dr. Duraisingh também padronizou ensaios de invasão de P. vivax in vitro em uma linhagem de células (JK-1) de eritroleucemia. O interessante é que essas células podem ser manipuladas geneticamente, por exemplo, mediante o uso de CRISPR/Cas9 (um sistema de edição genômica muito utilizado nos dias atuais). Desse modo, o Dr. Duraisingh obteve reticulócitos derivados de células JK-1 que não expressam TfR1 e mostrou que elas são refratárias à invasão por P. vivax (que depende desse receptor) mas não por P. falciparum (que não depende desse receptor).

Segundo o Dr. Ferreira, agora diversos grupos estão interessados em caracterizar respostas naturalmente adquiridas de anticorpos contra a PvRBP2b, para saber se são protetoras contra a infecção por P. vivax. “Em outras palavras, se a presença de tais anticorpos pode ser interpretada como um marcador de imunidade adquirida contra a malária vivax. Este é um de nossos interesses na colaboração com a Dra. Tham”, ressalta.

O especialista acredita que em longo prazo seja natural que a PvRBP2b seja vista como um importante candidato para o desenvolvimento de vacinas contra a malária vivax. “O nível de otimismo em relação ao desenvolvimento e ao uso de vacinas contra a malária é muito variável entre os pesquisadores da área, mas este não deixa de ser um desdobramento possível desse trabalho”, avalia.

Por fim, o Dr. Ferreira salienta a importância estratégica do Brasil como país endêmico onde há boa capacidade de pesquisa em malária. “Se soubermos desenvolver nossa capacidade de fazer trabalho de campo de bom nível e pesquisa laboratorial de ponta, teremos nosso lugar assegurado entre os principais produtores de ciência de ponta, especialmente em malária e outras doenças tropicais”, conclui.