Estados Unidos e Brasil podem liberar patentes para baratear produção de gel que previne o HIV

Publicação: 14 de abril de 2015

Produto ainda não tem data de lançamento, mas será feito a partir de composto extraído de soja transgênica

Matéria Embrapa

Antes de chegar ao mercado, serão feitos estudos pré-clínicos para avaliar os parâmetros de segurança e eficácia dos compostos, em seguida os clínicos, em seres humanos

Um trabalho que envolveu a parceria de cientistas brasileiros possibilitou a extração e purificação da cianovirina de soja transgênica cultivada. A substância é encontrada em algas marinhas e tem a capacidade de inibir a multiplicação do vírus do HIV no organismo. Agora, a tecnologia deve ser repassada para a indústria farmacêutica elaborar um gel com propriedades viricidas. As patentes, no entanto, que podem custar milhões à empresa que vier a desenvolver o produto, devem ser liberadas gratuitamente para oferecer uma alternativa mais barata de proteção, especialmente nos países pobres africanos.

A extração da cianovirina da soja transgênica foi feita por cientistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A pesquisa, realizada em parceria com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos e a Universidade de Londres, foi publicada em fevereiro na revista norte-americana Science.

Até o momento, as sementes de soja geneticamente modificadas se mostraram as mais eficientes biofábricas para a produção em larga escala da cianovirina. A substância já havia sido extraída de algas do oceano, em 1997, por pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde norte-americano.

“Antes da soja, foram testados outros sistemas de produção de proteínas como bactérias, leveduras e outras plantas. Em nenhum dos casos se conseguiu produzir a molécula em uma escala economicamente viável de ser escalonada e produzida”, explica o coordenador dos estudos na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, doutor Elíbio Rech.

De acordo com Dr. Rech, a expertise será transferida agora para o setor farmacêutico, que vai escalonar a semente, purificar uma grande quantidade e fazer a formulação de um gel, que poderá ser utilizado por mulheres antes de um relacionamento sexual.

“O foco principal dessa pesquisa foi os países africanos, onde grande porcentagem da população é contaminada com HIV e muitos homens não usam camisinha. Esse gel não é uma vacina, mas um preventivo adicional ao preservativo”, esclarece o pesquisador brasileiro.

O produto, no entanto, ainda deve levar alguns anos até chegar ao mercado e não tem data de lançamento. Primeiro, serão feitos estudos pré-clínicos, onde serão avaliados os parâmetros de segurança e eficácia dos compostos, e clínicos, quando são feitos os testes em seres humanos. O fármaco só é liberado para comercialização e disponibilizado para uso se passar por todas as etapas.

Uma das principais preocupações é em relação ao custo para o consumidor, uma vez que o preço do gel depende, entre outros, do valor gasto na fase de estudos clínicos. A alternativa seria a injeção de recursos por parte de fundações sem fins lucrativos nesta etapa. Há a possibilidade de a Fundação Gates – uma das maiores do mundo e que tem interesse em financiar produtos semelhantes – contribuir com essas pesquisas.

Além dos estudos clínicos, outro fator que influencia no valor final são as patentes para a utilização das tecnologias, que podem custar milhões de dólares. As licenças, no entanto, devem ser liberadas de taxas de royalties pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. “Muito provavelmente, a Embrapa se posicionará de forma semelhante”, afirma o Dr. Rech.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 35 milhões de pessoas no mundo viviam com HIV em 2013. A área mais severamente afetada é a África subsaariana, onde um em cada 20 adultos vivem com o vírus. A região responde por quase 71% das pessoas infectadas em todo o mundo.