Envenenamento por picada de cobra na lista prioritária de DTN’s é um avanço, dizem os pesquisadores José María Gutiérrez e Paulo Sérgio Bernarde

Publicação: 6 de junho de 2018

A demora em incluir o tema na lista prioritária de Doenças Tropicais Negligenciadas parece demonstrar o pouco interesse dos governos de países desenvolvidos para combater este problema

Existem várias razões para o envenenamento por picada de cobra receber pouca atenção da indústria farmacêutica e dos governos, o mais relevante talvez seja porque é uma doença tipicamente dos pobres

Embora as mordidas de cobras matem mais de 100 mil pessoas a cada ano e deixe outras 400 mil com deficiências significativas, como membros amputados e cegueira, e mediante alerta de renomados pesquisadores, entre eles, o Dr. José María Gutiérrez, que em 2013 publicou o artigo “The Need for Full Integration of Snakebite Envenoming within a Global Strategy to Combat the Neglected Tropical Diseases: The Way Forward” , na revista PLoS Neglected Tropical Diseases, apenas em 2017, a Organização Mundial de Saúde (OMS) foi convencida a adicionar o envenenamento por picada de cobra à sua lista prioritária de Doenças Tropicais Negligenciadas (DTN’s).

Apesar da demora, o Dr. José María Gutiérrez vê o fato como uma grande conquista e significa que programas específicos para combater esses envenenamentos serão desenhados e implementados no Departamento de DTN’s da OMS. Ele explica que já existe um programa importante em andamento sob coordenação deste departamento, que é o desenvolvimento de um mapa global para reduzir o impacto do envenenamento por picada de cobras. “Esperamos que, em um futuro próximo, com o apoio financeiro de diversas partes interessadas, a OMS desenvolva novos esforços nesta área, com a participação de estados-membros e outras partes interessadas relevantes”, assinala. O pesquisador salienta que essa vitória foi resultado do empenho de vários países, representantes da própria OMS e organizações, como a Global Snakebite Intiative [Iniciativa Global por Picadas de Cobras], Health Action International [Ação Internacional pela Saúde], International Society on Toxinology [Sociedade Internacional de Toxinologia], Médicos Sem Fronteiras, African Society on Venimology [Sociedade Africana de Estudos sobre Veneno] e a Fundação Lillian Lincoln, entre outras. “Estou muito feliz que o governo do meu país, Costa Rica, tenha tido um papel fundamental nesta iniciativa, com o envolvimento de vários outros países e, é claro, do Brasil”, comemora.

Para o pesquisador Paulo Sérgio Bernarde, que participa do projeto sobre acidentes ofídicos que está sendo desenvolvido pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e o Instituto Federal do Acre (Ifac), em parceria com pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical (Manaus) e do Instituto Butantan, isso representa um avanço e uma ótima decisão. O especialista destaca que os mais expostos a este agravo à saúde são os trabalhadores das áreas rurais e os povos que vivem nas florestas, lugares que na maioria das vezes se encontra distantes do atendimento hospitalar. “Essas regiões onde vivem populações de baixa renda geralmente não apresentam acesso aos recursos hospitalares para o tratamento dos casos de envenenamentos por serpentes. Essas populações mais expostas precisam também ter condições de serem devidamente atendidas, pois a demora no atendimento é um fator agravante de complicações e associado ao risco da evolução para óbito.”, alerta.

Outro problema é que apesar do envenenamento por picada de cobra ter grande impacto global ainda recebe pouca atenção da indústria farmacêutica e dos governos, além de ter pouca prioridade em pesquisas. Na opinião do Dr. José María Gutiérrez existem várias razões para isso. Talvez a mais relevante seja porque o envenenamento por picada de cobra é uma doença tipicamente “dos pobres”, afetando regiões rurais na África, Ásia e América Latina. “As pessoas atingidas pelo problema têm pouca voz política, logo, o problema tem crescido sem atenção”, lamenta. Outro elemento que pode explicar essa negligência é que a doença não é infecciosa, e, portanto, não pode ser erradicada. Ao contrário, pode apenas ser controlada através de uma série de intervenções.

Ainda de acordo com o pesquisador José María Gutiérrez, sendo uma doença dos pobres, ela não representa um mercado atrativo para a indústria farmacêutica, e não é uma prioridade em pesquisas. Em meio a tantos outros problemas de saúde, o envenenamento normalmente não é uma prioridade nas instituições de saúde pública com poucas notáveis exceções. Além disso, as picadas de cobra não são atraentes para a mídia, especialmente em países desenvolvidos. “Contudo, isso está mudando e cada vez mais pessoas estão direcionando os olhares para o envenenamento por picada de cobra”, ressalta. O Dr. Paulo Sérgio Bernarde concorda. “Em alguns países mais pobres da África, Ásia e da América Latina onde a incidência de casos e de óbitos é alta, a própria falta de recursos para lidar com esse problema seria uma das justificativas. “A indústria farmacêutica tem interesse maior nos agravos à Saúde que acometem populações de países mais desenvolvidos e assim tem maior retorno de lucro de seus investimentos em pesquisas”, acrescenta.

A demora em incluir o tema na lista prioritária de DTN’s parece demonstrar o pouco interesse dos governos de países desenvolvidos para combater este problema com os recursos financeiros e políticos apropriados. O pesquisador Paulo Sérgio Bernarde adverte que grande parte das camadas da população de baixa renda atingidas por acidentes ofídicos não está sendo devidamente atendida e garante que outras doenças como o Câncer e a Aids, que atinge também os países mais desenvolvidos, recebem maior atenção das indústrias farmacêuticas, uma vez que podem dar mais retorno em termos de lucro”, compara. A pouca atenção do tema também é relatada pelo Dr. José María Gutiérrez. Segundo ele, isso ocorre porque as pessoas afetadas pelo envenenamento por picada de cobras têm pouca voz e influência política. “Apenas recentemente o problema passou a ter atenção de alguns grupos interessados. O envolvimento de governos de países onde esse problema é altamente prevalente é completamente essencial para conscientizar e dar a atenção às picadas de cobras”, atenta.

 

Caminho a seguir rumo a uma estratégia globalmente integrada

Para mudar esse cenário, de acordo com o Dr. Paulo Sérgio Bernarde, primeiramente é preciso vontade política para que programas direcionados ao ofidismo sejam idealizados e executados. “É necessário que todos os países possuam sistemas de notificação destes agravos para que se tenha uma aproximação mais precisa da dimensão real problema dos acidentes ofídicos em cada região. A partir destas informações é possível definir estratégias. Ao saber quais as regiões com os maiores coeficientes de mortalidade e de letalidade é que se pode avaliar a qualidade do tratamento e se o antiveneno está sendo realmente eficaz”, complementa. O pesquisador defende ainda que instituições produtoras de soro anti-ofídico e de pesquisas em cada país sejam fortalecidas e recebam o devido recurso. Em sua opinião, é fundamental a integralização através da troca de conhecimento e experiências em todas as etapas do processo de produção do antiveneno, que vai desde a obtenção de serpentes e a manutenção delas em cativeiro, o manejo e extração do veneno, a produção e distribuição de antiveneno com a devida qualidade.

“Investimento em pesquisa é fundamental. É preciso conhecer a biologia básica das serpentes, a epidemiologia e circunstâncias dos acidentes ofídicos, a clínica dos envenenamentos, o tratamento e estudar os melhores processos de elaboração de soro anti-ofídico, que produza a menor taxa de reações alérgicas. A descoberta de exames diagnósticos que possam ser realizados nos pacientes para se descobrir de forma mais rápida e precisa qual foi a serpente responsável pelo envenenamento e que possam ser realizados em qualquer unidade hospitalar é muito necessária em regiões onde a fauna de serpentes peçonhentas é bem diversificada”, observa. O pesquisador explica que poucas pessoas levam até o hospital a serpente causadora do envenenamento, restringindo o diagnóstico à observação dos sintomas e sinais que o paciente apresentar, e geralmente as regiões tropicais, especialmente da África e da Ásia, apresentam uma fauna de serpentes bem diversificada. “A capacitação dos profissionais da saúde em lidar com os acidentes ofídicos também é crucial. Treinamento para o reconhecimento das serpentes peçonhentas, para o diagnóstico a partir dos sintomas e sinais que paciente apresentar e para o tratamento”, acrescenta.

Uma das estratégias em andamento é o mapa global que vai atender o envenenamento por picada de cobras. Sob coordenação da OMS, ele deve incluir ações e intervenções em vários níveis, como prevenção, organização comunitária, fortalecimento de sistemas de saúde, melhoria da tecnologia para antiofídicos, pesquisas de inovação em novas ferramentas de diagnóstico e terapia, melhoria na disponibilização e acesso a antiofídicos, treinamento de equipes de saúde no diagnóstico e manejo clínico de envenenamentos, acompanhamento de pessoas com sequelas por envenenamento e programas internacionais de cooperação, entre outros. Para o Dr. José María Gutiérrez, a chave por trás dessa estratégia é que ela precisa ser holística e compreensiva, abrangendo uma gama de ações e envolvendo várias partes interessadas. “A estratégia global deve ser acompanhada de estratégias regionais adaptadas aos problemas específicos de seus países e regiões. Na América Latina e no Caribe, a Organização Pan-Americana de Saúde está desenvolvendo várias ações nesse sentido”, diz.

 

Brasil como exemplo nas ações em lidar com o ofidismo

Na opinião do pesquisador Paulo Sérgio Bernarde, o Brasil é exemplo em lidar com o ofidismo, embora ainda precise melhorar em alguns aspectos: ter soro disponível de acordo com a demanda em cada região; capacitação dos profissionais da área de saúde para lidar com os acidentes ofídicos; inserir disciplinas sobre animais peçonhentos nas grades curriculares. “Estratégias precisam ser elaboradas para que as populações mais isoladas e em maior grau de risco, como as da Amazônia, possam ser atendidas de forma mais rápida. Possíveis soluções a se pensar é a produção de soro anti-ofídico liofilizado, que não requer refrigeração.

O Dr. José María Gutiérrez assegura que tanto o Instituto Butantan quanto outras instituições brasileiras podem contribuir de alguma maneira com essa estratégia globalmente integrada. De acordo com, ele, o Brasil tem uma forte tradição em envenenamento por picadas de cobras, e o Instituto Butantan tem protagonizado essa luta desde que iniciou a produção de antiofídicos em 1901. “O Brasil construiu uma capacidade extraordinária de estudar cobras, venenos e antiofídicos, através de vários grupos de pesquisas em vários estados. Além disso, consolidou um programa para a fabricação de antiofídicos. O país tem um laboratório regulador central, o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) e um programa nacional que garante a disponibilidade e acesso a antiofídicos em todos os estados”, lembra. O pesquisador reconhece que essa plataforma altamente consolidada tem um papel primordial no enfrentamento do problema em uma perspectiva global. “O Instituto Butantan e outras instituições brasileiras podem assessorar outros países em diversos aspectos, como produção variada de antiofídicos e controle de qualidade, políticas nacionais de distribuição dos antiofídicos, treinamento de equipes de saúde e intervenções em saúde pública no que diz respeito a picadas de cobras”, avalia. Ele também menciona a capacidade de produção dos antiofídicos brasileiros que pode ser aproveitada para a produção de antiofídicos em outros lugares do mundo que tanto precisam desses imunobiológicos, como a África subsaariana, por exemplo.

Por fim, o Dr. José María Gutiérrez argumenta que o interesse global renovado no assunto deve ser fortalecido com o envolvimento de muitas partes interessadas no mundo. O compromisso da OMS e seus escritórios regionais deve ser promovido e melhorado, em conjunto com a participação de ministérios de saúde de países com alta incidência de picadas de cobras. A organização comunitária nessas áreas deve envolver em paralelo o fortalecimento das estruturas de saúde pública, especialmente postos de saúde rurais, onde a maioria dos casos de picadas de cobras são atendidos. “O enfrentamento ao problema de envenenamento por picadas de cobras deve ser viso não como uma intervenção isolada, mas concebido dentro da rede de acesso à saúde para todos. No longo prazo, o objetivo deve ser reduzir o sofrimento humano provocado por esta e outras doenças que atingem os mais pobres dos mais pobres do mundo de forma tão desproporcional”, encerra.