
As doenças negligenciadas são um grupo de doenças tropicais endêmicas, que atinge especialmente populações pobres da África, Ásia e América Latina. Juntas, causam quase 1 milhão de óbitos anualmente. As medidas preventivas e o tratamento para algumas dessas enfermidades são conhecidos, mas não são disponíveis universalmente nos locais mais pobres do mundo. Entre 2000 e 2011, apenas 3,8% dos medicamentos aprovados foram para este grupo de doenças, que em conjunto representam 10,5% da carga global de doenças. Com o objetivo de oferecer novos tratamentos para doenças negligenciadas foi criada a Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi). Para saber mais sobre o assunto, a assessoria de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) conversou com o Diretor Executivo da DNDi, América Latina, Dr. Joel Keravec.
SBMT: Como foi o surgimento da DNDi?
Dr. Joel Keravec: Um estudo realizado em 2001 pelos Médicos Sem Fronteiras (MSF) e o Grupo de Trabalho sobre Medicamentos para Doenças Negligenciadas, precursor da DNDi, revelou que apesar das doenças negligenciadas representarem 12% da carga global de doenças, apenas 1% dos novos medicamentos aprovados entre 1975 e 1999 foram para essas doenças, incluindo doenças tropicais negligenciadas, malária e tuberculose. Uma década depois, a situação permanecia praticamente inalterada. Entre 2000 e 2011, apenas 3,8% dos medicamentos aprovados foram para este grupo de doenças, que em conjunto representam 10,5% da carga global de doenças. Este é o chamado ‘desequilíbrio fatal’, a razão pela qual nasceu a DNDi. Nossa iniciativa tem essas doenças como prioridade desde seus primórdios e buscamos preencher essa trágica lacuna do mercado farmacêutico.
O objetivo era, e permanece sendo, inequívoco: oferecer novos tratamentos para pacientes que sofrem das doenças transmissíveis mais negligenciadas, por meio do desenvolvimento de novos medicamentos ou novas formulações de medicamentos já existentes.
SBMT: Como a DNDi aborda a solução dos problemas de saúde das populações negligenciadas?
Dr. Joel Keravec: A DNDi propõe um modelo alternativo de parceria, descentralizado e colaborativo, trabalhando de forma inovadora com entidades públicas e privadas. Esse trabalho abrange toda a cadeia de pesquisa e desenvolvimento, desde a descoberta de novas moléculas, passando pela pesquisa pré-clínica e clínica, assegurando as condições favoráveis de acesso para que as necessidades dos pacientes sejam atendidas.
Trabalhamos com alguns pilares fundamentais, que são a principal característica do modelo sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento da DNDi e incluem: uma abordagem voltada para o paciente e suas necessidades reais; um compromisso com a igualdade de acesso dos pacientes aos tratamentos e o livre acesso ao conhecimento resultante dessas pesquisas; independência financeira e científica e potencialização do conhecimento e de experiências existentes ao construir sólidas alianças com parceiros públicos e privados.
Como tal, o modelo DNDi é uma ilustração prática de como a pesquisa e desenvolvimento pode ser conduzida para o interesse público com uma abordagem de desvinculação entre o investimento em P&D e o preço final do produto. Isso possibilita que os medicamentos resultantes dessas pesquisas cheguem as populações que os necessitam.
Soma-se a isso, a construção de redes de trabalho de P&D para desenvolver a capacidade de pesquisa de forma sustentável em países endêmicos e fomentar a responsabilidade pública.
SBMT: Qual é o maior desafio para DNDi hoje?
Dr. Joel Keravec: Embora exista incentivo para a inovação em pesquisa e desenvolvimento, as doenças negligenciadas permanecem existindo e afetam a um grande número de pessoas em populações negligenciadas. No entanto, a maioria das companhias farmacêuticas abandonam as pesquisas nesses campos e se dedicam a investir em mercados mais promissores. O resultado disso é um cenário no qual os tratamentos para estas doenças têm limitações severas, alguns são tóxicos ou difíceis de administrar e representam um obstáculo para os sistemas de saúde e para os pacientes. A DNDi tem o objetivo de desenvolver tratamentos seguros, eficazes e acessíveis para milhões de pessoas em situação vulnerável.
Existem doenças, como a hepatite C, para a qual existe tratamento de ponta, com um nível de inovação que mudou totalmente a maneira como a doença era tratada. Ainda assim, essa tecnologia não está adequada à região, particularmente em termos de preço: não acessível nem para a população, nem para os sistemas de saúde. Parte de nossos esforços, portanto, é garantir o acesso por meio da pesquisa e desenvolvimento de medicamentos com preços reduzidos. Assim, nossa estratégia é reduzir o custo dramaticamente, enquanto mantemos a eficácia do tratamento.
A atenção da saúde global também vem se concentrando nos desafios da resistência aos medicamentos antimicrobianos, onde o uso excessivo e indevido de medicamentos, juntamente com a prevenção e controle de infecção precárias, e investimentos escassos no desenvolvimento de novos medicamentos, provocaram a explosão do número de organismos resistentes.
Diante disso, em maio de 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a DNDi, lançaram a Parceria Global de Pesquisa e Desenvolvimento de Antibióticos (GARDP) com o objetivo de desenvolver e disponibilizar novos tratamentos para infecções bacterianas onde houver multirresistência ou para as infecções com tratamento inadequado. Além do desenvolvimento do produto, o intuito é garantir que o medicamento seja utilizado de forma racional, para evitar o crescimento da resistência.



