Doenças tropicais apresenta evoluções desde a década de 90, diz diretor da DNDi

Publicação: 18 de junho de 2014

A África, o Sudeste Asiático e a América Latina são as regiões mais afetadas pelas doenças tropicais.

A saúde é um dos requisitos mais importantes para o desenvolvimento social e econômico, e enfrentar a carga das doenças tropicais deve ser uma prioridade para as agendas nacionais e internacionais

A saúde é um dos requisitos mais importantes para o desenvolvimento social e econômico, e enfrentar a carga das doenças tropicais deve ser uma prioridade para as agendas nacionais e internacionais

A África, o Sudeste Asiático e a América Latina são as regiões mais afetadas pelas doenças tropicais, conforme destaca Dr. Eric Stobbaerts, diretor executivo da iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi, pela sua sigla em inglês) América Latina. Ele explica que esses agravos atingem populações mais desfavorecidas e concentradas em áreas rurais e periferias metropolitanas, particularmente locais com água insalubre, falta de saneamento, moradias precárias e com pouco acesso a cuidados de saúde. “Mas a epidemiologia destas doenças está em pleno processo de mudança, pois a mobilidade humana é cada vez maior e fenômenos de urbanização e globalização tendem a causar, gradualmente, mais e mais impacto nas outras esferas da sociedade e regiões do mundo”, comenta.

Dr. Stobbaerts atenta que, em todo o planeta, essas doenças afetam a vida de mais de um bilhão de pessoas – ou um sexto da população mundial. Muitas são letais e todas são uma ameaça à vida, “Esses agravos padecem de pouca visibilidade porque raramente causam picos epidêmicos dramáticos, matando alto número de pessoas em um tempo curto. Pelo contrário, essas doenças estendem suas consequências nefastas em longos períodos, trazendo deformidade, deficiência severa e morte lenta”, salienta ao atentar que, além disso, alguns grupos vulneráveis estão mais em risco de morbidade e mortalidade, como crianças, mulheres grávidas ou pessoas que sofrem de co-infecção devido à baixa imunidade.

“A leishmaniose cutânea, por exemplo, não é letal, mas causa desfigurações graves que levam a grandes estigmas sociais. Estamos buscando desenvolver uma formulação tópica, atualmente, que seja eficaz, permitindo um tratamento mais curto, de fácil administração e que, sobretudo, não deixe de representar um risco de vida para os pacientes”, aponta. Dr. Stobbaerts ressalta ainda a leishmaniose visceral, uma verdadeira doença global que afeta populações na América Latina, África e Índia com taxa de mortalidade da ordem de 10% ao ano – cerca de 20 a 40 mil óbitos no mundo a cada ano.

População esquecida

De acordo com o professor Carlos Morel, no artigo Promotoras da Pobreza,  publicado em 2011, as doenças negligenciadas enclausuram populações em um ciclo vicioso de pobreza e doença. São pessoas, inclusive crianças, que adoecem e não podem estudar e trabalhar, gerando problemas financeiros e educacionais que se perpetuam por várias gerações. “Este fardo não é somente microeconômico, mas também de impacto no desenvolvimento nacional. Estudos recentes realizados pelo Sabin VaccineInstitute, dos EUA, mostram que não responder às necessidades médicas dos pacientes afetados pela doença de Chagas custa ao Brasil cerca de US$ 129 milhões por ano”, salienta Dr. Stobbaerts ao constatar a importância de considerar o investimento feito nas ultimas décadas em inovação para estas doenças, ainda é pequeno se comparado ao que é alocado em outras que representam um mercado lucrativo.

O diretor executivo da DNDi América Latina assegura que a saúde é um dos requisitos mais importantes para o desenvolvimento social e econômico, e enfrentar a carga das doenças tropicais deve ser uma prioridade para as agendas nacionais e internacionais. Ele acredita que a nossa capacidade de responder à crise desses agravos marcará, para o bem ou para o mal, o modelo de civilização que teremos amanhã. “Queremos uma sociedade sustentável que favoreça a equidade e o acesso a serviços básicos ou uma sociedade desiquilibrada que somente reage perante emergências sociais e sanitárias por meio de ações de caridade?”, questiona.

Investindo em medicamentos

“Faço parte daqueles que, paradoxalmente, acreditam que as doenças negligenciadas são uma oportunidade, para que países endêmicos como Brasil, Argentina, México ou Colômbia impulsionem e liderem a inovação cientifica e industrial. Trata-se de um belo desafio para América Latina”, avalia Dr. Stobbaerts ao garantir que existe um grande potencial de financiamento na América Latina e uma rede de centros de excelência pela qual a região poderia se tornar uma peça-chave na resposta de seus próprios problemas.

Segundo ele, há avanços significativos no desenvolvimento de medicamentos capazes de combater esses agravos. “Em um recente estudo, vimos que na última década a indústria privada patrocinou 23% – quase 1/4 – dos estudos clínicos para novos medicamentos e diagnósticos contra doenças negligenciadas, em comparação com estatísticas irrisórias da década passada”, divulga o especialista ao acrescentar que, se olharmos retroativamente, o patamar do início da década de 90 ele é completamente diferente de hoje.

“A DNDi já realizou parcerias imprescindíveis com a indústria farmacêutica, como por exemplo com a Sanofi para o desenvolvimento do medicamento ASAQ – para malária – registrado em 31 países da África com 250 milhões de tratamentos distribuídos”, realça ao dizer que, atualmente,a DNDi tem também envolvido a indústria como parceiro essencial nas primeiras fases de pesquisa, via acesso a bibliotecas de compostos. “Ou seja, uma molécula que foi testada e descartada como potencial candidato a medicamento contra diabetes, por exemplo, pode apresentar atividade favorável contra alguma outra doença. Portanto, isto do lado operacional é muito frutífero, nos dá acesso a potenciais novos compostos e o sucesso da DNDi é amparado nessa abertura das multinacionais”, enfatiza ao complementar que essas parceiras, embora necessárias, por permitirem inovações significativas, não abordam a questão a fundo. Segundo Dr. Stobbaerts, infelizmente, o que ainda incentiva a pesquisa na saúde, seja no setor privado ou publico, é a expectativa do lucro, de uma patente ou de um incentivo em geral.

O diretor executivo da DNDi América Latina lembra que as fontes de financiamento para pesquisas nestas doenças continuam vindo das grandes agências internacionais de cooperação da Europa, dos Estados Unidos ou de grandes fundações filantrópicas privadas, como a Bill & Melinda Gates. “No que diz respeito à doença de Chagas, por exemplo, seria errado dizer que não existe política regional, mas falta uma liderança dos países endêmicos em prol de uma agenda comum para a inovação e para aumentar o número de pessoas recebendo tratamento com os produtos existentes”, alerta ao salientar que as coisas ocorrem de maneira muito lenta, ainda muito difusa, e que os pacientes mais excluídos continuam morrendo em silêncio.…