Coccidioidomicose: médicos e demais profissionais da saúde devem ficar alertas a essa doença emergente

Publicação: 6 de junho de 2017

No Brasil, a caça a tatus é uma importante atividade de risco para a infecção

Atualmente, a doença é considerada endêmica em alguns estados do nordeste: Piauí, Ceará Maranhão e Bahia

Há poucas semanas, três pessoas de uma mesma família residente em Serra Talhada, Sertão do Pajeú (PE), foram diagnosticadas com coccidioidomicose, uma doença respiratória causada pelo fungo Coccidioides posadasii (C. immitis). Esta é a primeira vez em que a enfermidade é notificada no estado. A doença tem sido diagnosticada principalmente no Piauí e no Ceará, com poucos casos no Maranhão e raros casos na Bahia e agora em Pernambuco. De acordo com o Médico infectologista da Fundação Municipal de Saúde (FMS) de Teresina (PI), Kelsen Eulálio, os casos brasileiros residem ou procedem do nordeste, pois o fungo responsável pela doença sobrevive e se multiplica bem em áreas desérticas ou semi-áridas. Ainda segundo ele, a ocorrência dos primeiros diagnósticos no sertão pernambucano já era esperada há bastante tempo, uma vez que as condições climáticas e ambientais existentes eram similares àquelas identificadas no Piauí e no Ceará. Nos casos diagnosticados no Piauí, a letalidade da doença foi de aproximadamente 8%.

A maior dificuldade em diagnosticar a infecção consiste em não considerá-la, uma vez que a coccidioidomicose pode ser facilmente confundida com outras doenças. “Muitos casos devem estar sendo erroneamente diagnosticados como pneumonia inespecífica (os casos mais agudos) ou tuberculose (casos com sintomatologia mais arrastada) e outros são certamente subdiagnosticados. O maior número de diagnósticos no Piauí se deve a cooperação de longa data da Fiocruz-RJ com a Universidade Federal do Piauí (UFPI) e serviços ligados à Secretaria de Saúde do Estado do Piauí, com capacitação de médicos e pessoal de laboratório para reconhecimento clínico da doença e identificação laboratorial do fungo”, assinala o especialista ao lembrar que a coccidioidomicose não é doença de notificação compulsória, à semelhança do que ocorre para outras micoses sistêmicas.

O Dr. Bodo Wanke, Coordenador do Laboratório de Referência Nacional em Micoses Sistêmicas do Instituto Nacional de Infectologia (INI/FIOCRUZ) complementa que a doença é pouco conhecida pelos médicos e bioquímicos do Brasil e do Nordeste. “Certamente vale a pena alertar para este problema regional, esclarecendo estes e demais profissionais da saúde sobre o problema, sobretudo quando envolve a prática de caçar e desentocar tatus, ocasião em que se produz grande dispersão aérea de esporos infectantes do fungo que são inalados pelos hospedeiros vítimas, envolvidos nesta atividade”, elucida. No Brasil, em mais de 90% dos casos, a doença tem sido diagnosticada em indivíduos que realizaram caçadas a tatus (Dasypus sp) com exposição a poeira do habitat desses animais (tocas). Cães participantes das caçadas a tatus também adoecem com frequência.

Dr. Kelsen Eulálio concorda e acrescenta ainda que o nosso Sistema de Saúde não está preparado para diagnosticar e tratar a doença. “As micoses sistêmicas, em geral e a coccidioidomicose, em especial, são muito pouco valorizadas nos currículos das faculdades médicas e de outras áreas da saúde. Não há ou são muito escassos treinamentos para médicos da atenção básica ou rede hospitalar para suspeição clinica da micose. Os bioquímicos e outros técnicos de nível superior não são treinados para o diagnóstico laboratorial ou mesmo desconhecem a existência da doença no Brasil”, lamenta. Na opinião do especialista, esforços devem ser realizados para que a enfermidade seja mais facilmente reconhecida por médicos e laboratoristas, especialmente os que atendem no Nordeste ou assistem pacientes oriundos dessa região. Inclusão das micoses endêmicas como doenças de notificação obrigatória facilitaria o reconhecimento e diminuiria o subregistro dessas doenças no País.

Nos EUA, a doença tem sido diagnosticada mais frequentemente em agricultores e em outros indivíduos que exercem atividades laborais no solo, casos isolados e pequenos surtos já foram relatados após exposição a buracos de roedores ou após escavações arqueológicas. No Brasil, até 2016, casos da doença foram registrados em pacientes procedentes de quatro estados do nordeste, com maior participação do Piauí (185), Ceará (21), Maranhão (8) e Bahia (2). Em 2017, além de 12 novos casos do Piauí, foram descritos os três primeiros casos do Pernambuco. Em 1994, o Dr. Bodo Wanke descreveu o primeiro surto epidêmico de coccidioidomicose pulmonar no Brasil, em Oeiras (PI), onde três pacientes, após participarem de caçada a tatus, apresentaram febre e sintomas respiratórios.

A doença é encontrada exclusivamente no continente americano, em áreas áridas e semi-áridas, caracterizadas por baixas pluviosidade e umidade, desde os EUA até a Argentina. O sudoeste dos EUA e a área contígua do norte do México são as principais áreas de distribuição da micose. O Nordeste brasileiro foi a última área endêmica reconhecida. Os dois primeiros casos da doença, no Brasil, foram identificados na década de 70, em São Paulo e em Brasília, em pacientes procedentes da Bahia e do Piauí. No início dos anos 90, após raros registros da doença, ela passou a ser identificada com maior frequência, seja na forma de casos isolados, seja na forma de pequenos “surtos” ou “microepidemias”, envolvendo de dois a oito homens. Aproximadamente 65% dos indivíduos que adquirem esta infecção permanecem completamente assintomáticos.