Cientistas brasileiros descobrem que pernilongo transmite vírus Zika

Publicação: 14 de outubro de 2017

De acordo com a publicação, as descobertas indicam que as estratégias de controle vetorial aplicadas ao Aedes aegypti podem precisar ser revistas

Se medidas de controle não forem aplicadas também para o Culex, talvez não haja uma redução global da transmissão do vírus Zika

Quando os pesquisadores Gúbio Soares e Silvia Sard, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), identificaram o vírus zika, em 2014, não imaginavam o quanto o mundo ainda iria ouvir falar sobre ele. Recentemente uma descoberta inédita agitou o meio científico, quando profissionais da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de Pernambuco isolaram e sequenciaram o genoma do vírus zika coletado no organismo de mosquitos do gênero Culex (conhecido como pernilongo ou muriçoca). Também, pela primeira vez, foi fotografada, por meio de microscopia eletrônica, a formação de partículas virais na glândula salivar deste inseto. O artigo “Zika virus replication in the mosquito Culex quinquefasciatus in Brazil” foi publicado na revista Emerging microbes & infections.

A pesquisa foi realizada na região metropolitana do Recife, onde a população do Culex quinquefasciatus é cerca de vinte vezes maior do que a de Aedes aegypti. Para a coordenadora do estudo, a doutora Constância Ayres, do Departamento de Entomologia do Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz (PE), as descobertas mostram de diversas formas a possibilidade do Culex ser um dos vetores do vírus zika na cidade. As amostras de mosquitos foram coletadas entre fevereiro e maio de 2016, em dois tipos de locais: onde os casos de zika foram registrados e em unidades públicas de atendimento de emergência.

Em agosto de 2016, a matéria da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) “Pernilongo pode ser um perigo para os brasileiros” já alertava que testes coordenados pela Dra. Constância Ayres haviam detectado a presença do vírus em alguns dos insetos. À época, o Pesquisador em Saúde Pública e Diretor do IAM/Fiocruz, Dr. Sinval Pinto Brandão Filho, explicava que as arboviroses, transmitidas por mosquitos, estão direta e indiretamente associadas às condições inadequadas ou precárias de saneamento básico.

“As descobertas significam que a dimensão do controle pode ser bem mais complexa, pois as medidas adotadas para o Aedes aegypti devem ser mantidas, mas também outras medidas devem ser desenvolvidas para o controle de Culex, que ao contrário do Aedes, prefere a água suja, ou seja, mais do que nunca se impõe a implementação imediata de ações de saneamento básico nas várias regiões do País”, reforça o Presidente eleito da SBMT.

A Dra. Constância explica que o sequenciamento do genoma permitirá conhecer melhor a diversidade genética das linhagens de Zika que estão circulando. “Este conhecimento é necessário para o desenvolvimento de vacinas e kits de diagnóstico, e também para identificar possíveis variações fenotípicas do vírus como maior virulência ou patogenicidade”, ressalta.

De acordo com a Fiocruz (PE), o próximo passo será analisar o conjunto das características fisiológicas e comportamentais do mosquito, no ambiente natural, para entender o papel e a importância dessa espécie na transmissão do vírus Zika.

Outra importante descoberta da Fiocruz PE: substância capaz de bloquear vírus zika

A descoberta de uma substância capaz de bloquear a produção do vírus zika em células epiteliais e neurais, realizada por pesquisadores do Departamento de Virologia e Terapia Experimental da Fiocruz Pernambuco, também foi divulgada em agosto, na revista International Journal of Antimicrobial Agents. O estudo coordenado pelo Dr. Lindomar Pena, intitulado “The thiopurine nucleoside analogue 6-methylmercaptopurine riboside (6MMPr) effectively blocks Zika virus replication”, mostra a atividade antiviral da substância 6-metilmercaptopurina ribosídica (6MMPr) contra o tipo de vírus Zika que circula no Brasil. Tendo a 6MMPr se mostrado como promissor candidato antiviral contra o vírus, a pesquisa segue agora para uma avaliação in vivo adicional.