Ciência, saúde e educação estarão a serviço da sociedade brasileira, diz nova presidente da Fiocruz

Publicação: 8 de março de 2017

Em tempos de mudança, de transição demográfica e epidemiológica, os problemas relacionados à saúde não podem ser analisados sem que se leve em conta os fatores sociais, políticos e ambientais

Dra. Nísia Trindade

Pretendo fortalecer o papel da Fiocruz no desenvolvimento científico e tecnológico em saúde, considerando que este deve estar orientado por um projeto de País soberano, com superação das iniquidades e ampliação dos direitos sociais

Cerca de 75% da população brasileira depende apenas do sistema público de saúde, sendo que na área de doenças crônicas e de tratamentos como câncer a dependência chega a 90%. Há também atividades como a vigilância e a imunização, entre outras, que abrangem 100% da população. Para a doutora Nísia Trindade Lima, presidente da Fiocruz desde janeiro, isso significa dizer que é necessário melhorar cada vez mais o sistema, ampliar seu apoio político e aperfeiçoar seus serviços, para que o SUS seja reconhecido como aquilo que é, um patrimônio nacional. Segundo ela, para defender o direito universal à saúde é preciso fortalecer pesquisas sobre o acesso à saúde e contribuir para as políticas públicas específicas e intersetoriais, pois ações no campo do ambiente, da educação, da habitação, do trabalho são indissociáveis da conquista do direito à saúde. Além de promover a inovação que traga benefícios à sociedade, o que requer a associação entre política de inovação e política industrial, bem como formar quadros e desenvolver atividades educacionais que fortaleçam a perspectiva da promoção da saúde e ampla difusão do conhecimento científico. “A cooperação com entidades como Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Academia Brasileira de Ciências (ABC) e Academia Nacional de Medicina (ANM), entre outras, também é fundamental neste processo”, observa a presidente, primeira mulher a liderar a Fiocruz, ao garantir que fará uma gestão orientada pelo diálogo com todas as esferas de governo, com a comunidade científica e com os movimentos sociais.

A doutora Nísia destaca que a gestão da Fundação, sob a sua presidência, pretende fortalecer o papel institucional no desenvolvimento científico e tecnológico em saúde, considerando que este deve estar orientado por um projeto de país soberano, com superação das iniquidades e ampliação dos direitos sociais. “Em uma conjuntura adversa no que se refere às condições econômicas e políticas, fortalecer as redes de pesquisa, de vigilância em saúde, o trabalho integrado em todas as esferas do SUS, será fundamental”, assinala ela, ao acrescentar que mudanças estruturais no campo da medicina, promovidas pela geração e incorporação de novas tecnologias, trarão impactos diretos para a organização do sistema de saúde e a oferta de serviços e procedimentos. “A ciência, a saúde e a educação, o tripé em que se assenta a instituição, estarão a serviço da sociedade brasileira, da solidariedade entre os povos, pela paz, pelos direitos, pela equidade e pela soberania”, afirma. A presidente acredita que para promover a inovação é preciso associar a política científica e tecnológica à política industrial e articular melhor as ações de pesquisa a dos institutos de tecnologia e produção (Bio-Manguinhos e Farmanguinhos). “O Brasil tem uma sólida comunidade científica, com destacada contribuição em diversas áreas do conhecimento. Nos últimos 20 anos o país avançou de modo significativo em sua base científica e a Fiocruz acompanhou este processo, aportando contribuições específicas do campo da saúde”, frisa, ao assinalar que um dos grandes desafios colocados está no campo da inovação, pois, como diversos estudos têm demonstrado, há um importante gap entre a geração de conhecimentos e sua apropriação pela sociedade.

Impacto das medidas econômicas sobre a ciência brasileira

Na opinião da presidente da Fiocruz, a discussão do financiamento público e do papel do Estado no desenvolvimento ficou muito comprometida pela visão contábil e pela perspectiva do ajuste fiscal. E o impacto das medidas neste campo trarão prejuízos importantes para a ciência brasileira e, como consequência, para o futuro do País. “Estamos falando de recursos que envolvem dimensões essenciais para a qualidade de vida e que não podem ser vistos como gastos, mas como investimentos, essenciais num projeto nacional de desenvolvimento sustentável, como gasto com ciência, tecnologia e inovação, ambiente, no desenvolvimento regional, nas cidades inteligentes, na mobilidade urbana. Os indicadores de saúde e de educação, por exemplo, fazem parte do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), representando dois dos três componentes, sendo partes indissociáveis do próprio conceito de desenvolvimento. No atual cenário o conjunto da atividade de pesquisa e inovação pode ser fortemente prejudicado. Os mais diversos estudos vêm demonstrando o risco da descontinuidade de projetos, os retrocessos que podem ser gerados e a necessidade de preservação dos programas voltados à formação de recursos humanos altamente qualificados para a pesquisa”, lamenta.

Surto de febre amarela e os desafios

O enfrentamento dos problemas numa área de grande complexidade como a saúde requer o consórcio entre diferentes ramos do conhecimento e múltiplas perspectivas. Em tempos de mudança, de transição demográfica e epidemiológica, os problemas relacionados à saúde não podem ser analisados sem que se leve em conta os fatores sociais, políticos e ambientais. O surto de febre amarela revela a necessidade de uma vigilância de caráter sistemático e permanente e também mostra os nossos grandes desafios, não só do campo da Saúde. São desafios ambientais, de mudanças no padrão evolutivo dos vetores e do vírus, de mudança do padrão de mobilidade entre áreas urbanas e silvestres, de mudança de hábitos e circulação de pessoas e de mercadorias. São desafios que hoje precisam ser pensados na escala da Saúde Global. “Os desafios vão desde o diagnóstico em menor tempo, o cuidado com as populações em áreas de risco, a produção da vacina, as estratégias de imunização e a formação de profissionais de saúde para lidar com este quadro adverso”, pontua.

Em recente entrevista, a presidente da Fiocruz afirmou que atualmente é praticamente impossível erradicar o Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, zika, chikungunya e também da febre amarela. Segundo ela, a frase sobre a erradicação do A. aegypti é uma constatação baseada na análise dos principais especialistas na discussão sobre o controle dos vetores e também da história da medicina tropical. Condições climáticas, sociais e econômicas favorecem a proliferação do mosquito. “Uma fonte da maior relevância para o entendimento do problema é o livro “Dengue: teoria e práticas”, organizado pelos pesquisadores Denise Valle, Denise Nacif Pimenta e Rivaldo Venâncio da Cunha e publicado pela Editora Fiocruz. No prefácio à obra, o doutor Pedro Tauil resume com precisão as raízes deste grave problema sanitário a que estão expostas hoje 2,5 bilhões de pessoas. Segundo o Dr. Tauil, o aumento da infestação pelo mosquito decorreu, tanto no Sudeste Asiático como nas Américas, do grande fluxo populacional rural-urbano a partir dos anos 50 e 60 do século passado, sem as necessárias condições de habitação e saneamento básico. A complexidade do controle sobre o vetor é muito grande e ultrapassa os limites do setor saúde, requerendo ações intersetoriais que abranjam, entre outras, educação, comunicação social, saneamento básico, limpeza urbana e políticas habitacionais.

Desta forma, o saneamento e outras políticas devem ter tratamento prioritário, ao mesmo tempo em que o conhecimento científico da entomologia, da epidemiologia e de outros saberes deverá contribuir para novas metodologias e tecnologias de controle do vetor, numa perspectiva que preserve as condições ambientais e que seja sustentável. “Estamos falando de um problema gerado pelo processo de desenvolvimento desigual e com forte impacto negativo sobre a vida das pessoas, especialmente as mais pobres. Não se trata de uma guerra da Humanidade contra o mosquito, mas do resultado de um padrão de desenvolvimento econômico, portanto de ações que ocorrem na sociedade e em sua relação com a natureza”, conclui.