Chikungunya chegou ao Brasil antes do que foi apontado, revela pesquisa

Publicação: 11 de março de 2019

O autor, Dr. Thiago Moreno L. Souza, alerta para a possibilidade de novas arboviroses e sobre a importância de ficar atento ao vírus Mayaro e Oropouche

Pesquisadores analisaram amostras de sangue e os resultados apontaram que o vírus chikungunya já circulava no Brasil em 2013, mas passou despercebido pelas autoridades sanitárias

Um artigo publicado recentemente na Scientific Reports, grupo Nature, indica que o vírus chikungunya chegou ao Brasil pelo menos um ano antes do que foi detectado pelos sistemas de vigilância em saúde pública. O resultado do trabalho intitulado “Emergence of the East-Central-South-African genotype of Chikungunya virus in Brazil and the city of Rio de Janeiro may have occurred years before surveillance detection”, demonstra que muitos pacientes foram diagnosticados erroneamente por conta da não identificação correta do vírus. A pesquisa teve como objetivo alertar as autoridades sanitárias para o problema. Participaram do estudo pesquisadores da Escola de Saúde Pública Mailman, da Universidade de Columbia, e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O Dr. Thiago Moreno L. Souza, autor da pesquisa e professor de bioquímica da Fiocruz no Rio de Janeiro, destaca que a descoberta é importante no sentido de poder confirmar e quantificar o atraso dos sistemas de vigilância em detectar a entrada de um novo agente. “Se a data de entrada estivesse dentro da nossa margem de erro poderíamos dizer que o sistema de vigilância foi eficiente. Mas como não foi o caso, quantificamos esse atraso, essa ineficiência, em aproximadamente um ano entre a data de entrada e a detecção”, explica. Ainda segundo ele, a partir desse parâmetro é possível reforçar os sistemas de vigilância e avaliar se efetivamente as medidas estão surtindo efeito através da quantificação dos valores.

Para a pesquisa, os cientistas analisaram amostras de sangues coletadas no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) entre março de 2016 e junho de 2017, utilizando um teste genético para rastrear a entrada no Brasil, tanto temporal como geográfica. Das amostras analisadas, mais de 60% tiveram resultado positivo para o vírus. Dentro destes casos, 40 amostras positivas para chikungunya que tiveram resultados negativos para dengue e zika foram avaliadas novamente usando o método CII-ArboViroPlex, desenvolvido pelo Centro de Infecções e Imunização (CII) da Universidade de Columbia, que consegue, simultaneamente, resultados para a presença de zika, todos os sorotipos do vírus da dengue, febre do Nilo e chikungunya. O teste confirmou a avaliação anterior, mas com maior sensibilidade, sugerindo a possibilidade de conseguir identificar o vírus que outros testes não conseguiriam.

Destas amostras, 14 representavam datas específicas do período de 15 meses antes e foram analisadas posteriormente utilizando outro método de detecção, vigilância e descoberta de arboviroses desenvolvido pelo CII. O teste permitiu a recuperação quase completa dos sequenciamentos de DNA e identificação dos genótipos do vírus da chikungunya. A análise destes sequenciamentos mostrou uma forte correlação entre a divergência genética e a data em que a amostra foi coletada, ou seja, uma janela de cerca de um ano foi encontrada. O resultado permitiu que os pesquisadores identificassem um “relógio molecular” baseado no ritmo das mutações entre as amostras. Esse cronograma sugere que o vírus poderia ter circulado em 2012 e provavelmente foi importado da África Central, depois de uma circulação negligenciada por 20 anos em outras partes do mundo.

Para o Dr. Moreno, o vírus chikungunya circulou durante esse tempo sem ter sido percebido por uma questão da lógica por trás do diagnóstico das doenças. “Operando no contexto do século XX, você pressupõe determinada doença e pesquisa sobre ela. Como em 2013 a preocupação era dengue, se testava para ela e, caso fosse negativo, não havia um algoritmo de diagnóstico diferencial para saber qual enfermidade a pessoa apresentava naquele momento”, assinala. O pesquisador acrescenta que dentro da coerência que se opera no século 21, com o surgimento de novas doenças, é que os casos negativos precisam ser testados para avaliar um novo agente com potencial risco para a saúde pública está por chegar.

Neste sentido, o pesquisador alerta para a possibilidade do surgimento de novas arboviroses. “O cenário brasileiro aponta para isso, somos hiperendêmicos para dengue, tivemos a reemergência da febre amarela, somos um dos únicos países com dois genótipos chikungunya circulando, tivemos uma massiva circulação de Zika, então, tudo isso mostra que o Brasil é particularmente vulnerável à emergência de novos arbovírus”, reconhece ao enfatizar a importância de se ter atenção para o vírus Mayaro, que é da família do chikungunya e tem circulação mais restrita na região Centro-Oeste e Norte, e ao vírus Oropouche, arbovírus com certo nível de circulação no Norte do País e que tem uma taxa de morbi-mortalidade maior.

Genótipos no Brasil

Outra importante evidência do estudo demonstra a entrada do vírus chikungunya no Rio de Janeiro em um só evento, vindo diretamente de Sergipe. A pesquisa também revela que grandes cidades brasileiras, como o Rio de Janeiro têm circulação autóctone do vírus desde março de 2016, quando co-circulou com dengue e vírus zika. Questionado sobre a possibilidade de outros vírus que causam arboviroses, a exemplo do zika, também terem passado despercebido pelas autoridades sanitárias, o pesquisador e categórico ao afirmar que o fato aconteceu. “Em meados de 2018 publicamos um estudo revelando que o zika circulou no Brasil por pelo menos um ano antes de ser percebido, sendo o epicentro da circulação a região Nordeste, depois se espalhou para outros estados e para outros países da América do Sul, América Central e de lá para Flórida”, esclarece.

Atualmente dois genótipos do vírus chikungunya circulam no Brasil, um deles proveniente da Ásia e, outro, da África Central. O genótipo asiático foi confirmado na região Norte (Oiapoque, estado do Amapá) e o genótipo ECSA foi identificado pela primeira vez na região Nordeste (Feira de Santana, Bahia). O genótipo ECSA foi posteriormente detectado em outros estados, principalmente Sergipe e Rio de Janeiro. A reconstrução filogeográfica da pesquisa sugere que a região da África Central é a provável fonte da linhagem ECSA que se espalhou pelo Brasil. No entanto, dados suficientes sobre os genomas de ECSA da África Central não estão disponíveis para uma conclusão definitiva. Assim, uma amostragem mais forte de cepas do chikungunya naquela região poderiam aumentar a compreensão epidemiológica molecular da circulação do genótipo ECSA negligenciado desde a década de 1980, o que ajudaria a apontar com mais precisão o país de origem do surto brasileiro de ECSA.

A pesquisa analisou sequências dos estados de Alagoas, Bahia, Sergipe, Paraíba, Pernambuco e Rio de Janeiro, entre 2012 e 2014. Os resultados confirmam que a introdução do genótipo ECSA no Brasil provavelmente ocorreu na Bahia. Entretanto, a análise diverge no tempo médio de introdução deste genótipo até um ano antes das estimativas anteriores. Da Bahia, o genótipo se espalhou para Alagoas e Paraíba, bem como para o Rio de Janeiro. A reconstrução temporal indica que a introdução do genótipo no Rio de Janeiro ocorreu muito provavelmente no início de 2014 e que a partir do Rio de Janeiro essa linhagem retornou para a região Nordeste espalhando-se para Sergipe.

Medidas para evitar a circulação do vírus chikungunya

O Dr. Moreno considera fundamental o controle ambiental. O pesquisador observa que há cada vez mais ocupações desordenadas, mais ocupação ordenada em áreas de preservação, substituição de áreas florestais por urbana, local onde o mosquito já habitava. Além disso, ele frisa a falta de manejo adequado do lixo. “Muitos lixões estão próximos dos grandes centros urbanos e após as chuvas não há nenhum controle dos depósitos de água parada”, lamenta. Além disso, o professor chama atenção para a necessidade de medidas de saneamento básico, um desafio mundial para conter as arboviroses.

Por fim, para controlar a entrada de possíveis novos vírus no Brasil, o Dr. Moreno reconhece que o desafio é evitar a entrada de novos agentes antes que causem uma epidemia em saúde pública, de modo que os primeiros casos possam ser identificados e as pessoas deixadas em isolamento de contato, uma quarentena, por um tempo determinado, a fim de evitar que ela propague este novo agente. “Essa medida, por exemplo, é a utilizada contra o Ebola, na África, com vigilância continua”, finaliza.

A doença

A febre Chikungunya é um problema de saúde pública global com profundo impacto em regiões tropicais e subtropicais do mundo, onde os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus são prevalentes. Os sintomas iniciais mais comuns são febre e intensa dor nas articulações, principalmente nas costas que é o principal diferencial da dengue. Geralmente os sintomas surgem 7 dias após a pessoa ser picada pelo mosquito e duram até 14 dias. Já o inchaço das articulações pode surgir até 60 dias depois do início dos primeiros sinais e sintomas.

Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, o Brasil apresentou redução de 51% nos casos de chikungunya este ano em relação ao mesmo período de 2018. Até 02 de fevereiro, foram registrados 4.149 casos prováveis de infecção contra 8.508 casos notificados no ano passado. A incidência, em 2019, está em dois casos por 100 mil habitantes. A região Norte apresentou o maior número de casos, 2.730, seguida pelo Centro-Oeste, com 789 casos; Nordeste, com 446 casos. Para mais informações clique aqui .