Doença de Chagas: Especialistas em Doenças Tropicais Venezuelanos, Dr. Oscar Noya e Dr. Javier Alberto Roa Sayago falam sobre a situação em Táchira

Publicação: 7 de maio de 2018

O fato ocorrido no estado pode ser considerado um surto endêmico e não uma epidemia. Nesta forma de contágio, via oral, não há ameaça epidemiológica

Na Venezuela há escassez de vários medicamentos de uso comum, mas, neste caso específico, todos os medicamentos necessários para o tratamento dos afetados foram obtidos

A cidade de Puerto Nuevo, no município Libertador, sul do estado de Táchira, cerca de 100 quilômetros Rio Arauca, fronteira com a Colômbia, registrou, em abril, um surto epidêmico de doença de Chagas aguda. A enfermidade foi confirmada em pelo menos cinco dos mortos e em alguns dos 40 pacientes sintomáticos que foram transferidos da comunidade para o Hospital Central de San Cristóbal.

No local, uma pequena cidade, onde vivem aproximadamente 1300 pessoas, os habitantes sofrem com a falta de infraestrutura adequada e a pobreza é uma realidade. Alguns moradores têm renda suficiente para comprar garrafas de água para consumo diário, mas a maioria consome a água que encontra em fontes e, muitas vezes, bebem sem ferver. Além disso, a comunidade também sofre com problemas no serviço elétrico bastante precário. Segundo relatos, em algumas casas foram construídos canais de cimento para desviar as águas do esgoto.

Em entrevista para a assessoria de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), dois renomados pesquisadores Venezuelanos, Dr. Oscar Noya, do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade Central da Venezuela, e o especialista em doenças tropicais, Dr. Javier Alberto Roa Sayago, que também é membro da Sociedade Venezuelana de Infectologia e da Sociedade Venezuelana de Infectologia Capitulo Táchira, falam sobre a situação.

O pesquisador em doenças tropicais infecciosas Dr. Oscar Noya observa que os números citados são reais, mas destaca que o estudo ainda não foi concluído. “O número de mortos está correto, mas ainda levará alguns dias para determinar com precisão o número de pessoas afetadas, então é importante aguardarmos a confirmação dos resultados deste surto importante de Doenças de Chagas Oral (DCO) pelo Dr. Noel Calderon, Chefe de Epidemiologia do Estado de Tachira”, ressalta. Ainda segundo o especialista, a transmissão da DCO pode ocorrer em qualquer parte do país, até mesmo distante dos locais de preparo do alimento contaminado com o Trypanosoma cruzi. “Neste caso, existem fortes indícios de insalubridade, mas ainda não conseguimos apontar nenhum alimento, especialmente bebidas, como fonte de infecção. Na Venezuela, assim como no restante da América Latina, o consumo de sucos caseiros ou de preparo artesanal é comum, que podem ser contaminados com as fezes do barbeiro ou com o inseto inteiro, principalmente durante ou após o preparo”, assinala.

O médico infectologista e especialista em doenças tropicais Dr. Javier Sayago, detalha que no bairro 8 de fevereiro, em Puerto Nuevo, estado de Táchira, há mais de dois anos existem denúncias às autoridades sobre o lançamento de esgotos em água limpa, e atualmente, em quase toda a extensão de duzentos metros onde há prevalência dos casos, existem fazendas de suínos, fábricas de queijos e matadouros sem um controle sanitário adequado, despejando seus dejetos no esgoto que posteriormente se misturarão à água potável. “Isto criou condições insalubres, que juntamente aos criatórios de roedores e triatomínios, que por sua vez contaminaram os alimentos (frutas), acabam compondo a via de contágio dos casos apresentados”, explica ao observar que esta é uma zona de prevalência da Doença de Chagas.

O surto surge em meio a uma crise, com escassez de medicamentos, impedindo inclusive que os venezuelanos obtenham tratamento. O Dr. Oscar Noya admite que há grande escassez de vários medicamentos de uso comum (anti-hipertensivos, insulinas, antiarritimicos, antibióticos, etc), como outros específicos para doenças de tratamento exclusivo pelo Ministério da Saúde (malária, Chagas, etc). Contudo, neste caso específico, houve a possibilidade de adquirir todo o medicamento necessário para o tratamento das pessoas afetadas. “Não sabemos o tamanho da reserva de medicamentos atualmente disponíveis nos escritórios de Saúde Ambiental do Ministério da Saúde no estado de Táchira”, reconhece ao complementar que, baseado em experiências anteriores do país, a expectativa é que o tratamento seja com o benzanidazol. O Dr. Javier Sayago concorda com a declaração do colega e enfatiza que felizmente a intervenção oportuna das autoridades sanitárias com o cerco epidemiológico foi capaz de romper a cadeia epidemiológica, com o devido controle. “Em relação ao tratamento, o pior cenário teria sido a morte de pessoas que tiveram o tripanossoma identificado no sangue, porém as autoridades responderam com a aplicação do medicamento”, completa.

Questionados sobre as ações a serem realizadas, borrifação em residências onde se presume a presença do parasita Trypanosoma cruzi, bem como nas águas residuais, ambos os especialistas concordam que é o suficiente, considerando que estas medidas estão de acordo com as normativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Na opinião do Dr. Oscar Noya, o mais importante seria a educação da população para prevenir estes surtos, especialmente sobre os cuidados no preparo e armazenamento de alimentos, o uso de mosquiteiros nas portas e janelas das residências, os frisos das paredes para evitar a permanência de vetores, a limpeza do entorno das residências, a pasteurização de sucos e caldos artesanais, além de manter animais afastados da residência, entre outros. O Dr. Javier Sayago complementa o que foi dito pelo colega ao garantir que o país sempre adota medidas de prevenção, considerando as regiões de prevalência e a grande quantidade de pessoas em situação de risco. “Neste caso, realmente foi um surto endêmico, não houve a necessidade de registrá-lo como epidemia, nem de alertar o país, pois não saiu da região onde se iniciou e foram adotadas as ações apropriadas”, sustenta.

Visto o fluxo contínuo de venezuelanos que migram para a Colômbia foi levantada a possibilidade da doença chegar a este país. Entretanto os dois especialistas em doenças tropicais descartam essa possibilidade. “Não vemos esta possibilidade, por enquanto é um fato muito localizado, e volto a repetir que cortamos a cadeia epidemiológica a tempo, justifica o Dr. Javier Sayago. Dr. Oscar Noya aproveita para esclarecer que a Doença de Chagas está presente em todos os países da América Latina com transmissão da doença, porém somente agora foi relatada no Brasil, Venezuela, Colômbia, Guiana Francesa e Bolívia. “Creio que o mais importante seria o governo colombiano iniciar protocolos de segurança para outras doenças, como sarampo, difteria, TBC, etc. A Colômbia tem tido surtos importantes como os que citei, dos quais, certamente alguns originados na Venezuela já que alguns pacientes cruzaram a fronteira em busca de tratamento”, avalia.

Por fim, o médico infectologista Javier Sayago revela que a situação pode ser mais alarmante. Segundo ele, mais de seis milhões de venezuelanos são propensos à doença de Chagas porque a Venezuela é uma área endêmica. Em sua opinião, se faz necessário mais tratamentos na região, mesmo para os pacientes que carregam a doença há muito tempo e que devem receber tratamento por 30 a 40 anos, pois após esse período podem ter manifestações cardiológicas e não terão mais como ser tratados