Caso de Febre do Nilo Ocidental no Piauí é preocupante, alertam especialistas

Publicação: 14 de dezembro de 2014

Sistema de vigilância detecta paciente com infecção pelo vírus ocidental logo após a sua implementação. Mais casos não detectados podem existir no País

About 75% of the people bitten by the virus vector do not develop the disease, but there can be severe consequences in 1% of the cases

Cerca de 75% das pessoas picadas pelo vetor do vírus não desenvolvem a doença, mas em 1% dos casos podem ocorrer problemas mais sérios

Imagine ser picado por um pernilongo e desenvolver uma grave doença neurológica. Foi o que aconteceu com um agricultor de 52 anos que mora em Aroeiras do Itaim, no Piauí, que teve encefalite e foi diagnosticado com o vírus do Nilo Ocidental. O agente é transmitido pelo mosquito do gênero Culex, o famoso pernilongo, e pode ser perigoso para a saúde. Após a descoberta do caso, o assunto ganhou repercussão e o questionamento se essa doença é ou não epidêmica no País.

De acordo com o infectologista Dr. Dalcy Albuquerque Filho, representante Regional da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT/DF), não há motivo para pânico. No entanto, mesmo se tratando de um caso isolado, a situação é preocupante. “Embora já tenhamos identificado no Brasil animais com soro positivo para a doença, nunca havíamos detectado o vírus em humanos e isso representa uma quebra de paradigma”, afirmou. Segundo o especialista, o mais importante é que sejam estabelecidas regras de vigilância, especialmente ambientais, para rastrear e investigar o problema. “O principal indicador é a morte de pássaros. É importante verificar se está havendo muitas mortes, principalmente no Piauí, para averiguar se é devido à Febre do Nilo Ocidental e, consequentemente, tentar bloquear a disseminação do vírus”, disse.

“A encefalite do Nilo Ocidental é, evidentemente, um grave problema de saúde pública, como é nos Estados Unidos e em outros países, pois afeta o sistema nervoso de cerca de 1% dos acometidos, particularmente dos mais idosos. A sua ausência no Brasil, até este caso, era enigmática. Afinal, por que um vírus disseminado na América do Norte e no Caribe, não entrava no Brasil onde os seus insetos vetores e animais reservatórios estão presentes? E, de repente, aparece no interior do Estado do Piauí”, questiona o ex-presidente da SBMT e professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), o médico infectologista Carlos Henrique Costa. Para ele a pergunta é mais incômoda ainda porque o vírus foi identificado no momento seguinte em que uma rotina de investigação foi estabelecida num hospital de referência.

Para ele a conclusão é óbvia: o vírus já circula no indetectado no Brasil há algum tempo. Assim, este caso, revela duas facetas preocupantes da saúde pública no Brasil: de um lado a negligência do nível central em reconhecer um grave problema de saúde pública e, de outro, a fragilidade institucional do País, revelada na certeza de que agora muitos outros serão identificados assim que um protocolo de investigação for implementado e for seguido nas instituições de atenção à saúde de País afora.

Mas, segundo o Ministério da Saúde (MS), trata-se de um evento isolado e não tem significado epidemiológico relevante e nem risco para a saúde pública do Piauí e do Brasil. A Pasta informou ainda que outras quatro pessoas apresentaram sintomas neurológicos considerados suspeitos, mas os exames laboratoriais descartaram a possibilidade da doença, conhecida como Febre do Nilo Ocidental. Foram realizados testes em mais 18 moradores da região, mas todos deram negativo para o vírus.

De acordo com Dr. Marcelo Adriano Vieira, da Gerência de Epidemiologia da Fundação Municipal da Saúde de Teresina (FMS), médico que auxiliou na identificação do caso do agricultor que vive em Aroeiras do Itaim, duas hipóteses são prováveis em relação à presença da Febre do Nilo Ocidental no Brasil.

A primeira é que outras pessoas já tenham sido infectadas pelo vírus, mas a doença não tenha sido diagnosticada no sistema de saúde. “A doença talvez já seja endêmica no Brasil num nível baixo, ou seja, sem causar epidemia. Devido aos recursos diagnósticos serem muito limitados na maioria dos serviços hospitalares, alguns casos podem não ter sido identificados como causados pelo vírus do Nilo Ocidental”, colocou o neurologista.

A outra teoria é que uma epidemia esteja em fase inicial. “É uma possibilidade que tenhamos descoberto muito precocemente esse caso antes de se tomar uma proporção epidêmica”, explicou, acrescentando que isso é positivo para o sistema de vigilância de saúde do Estado do Piauí, uma vez que foi capaz de identificar a doença.

Ações

Antes da confirmação do caso, o Ministério da Saúde, em parceria com a Secretaria de Saúde do Estado do Piauí e com a FMS, mandou uma equipe de profissionais com veterinários, enfermeiros, médicos e biólogos para verificar se ocorreram outras manifestações da doença.

Segundo o Dr. Vieira, não houve novos registros da febre. “A primeira preocupação foi ver se havia mais alguém doente nas proximidades onde vive o agricultor infectado. Porém, não havia mais ninguém com febre ou com manifestação neurológica”, afirmou ao acrescentar que, mesmo assim, uma equipe coletou sangue de cavalos, aves e galinhas da região para averiguar se esses animais continham o vírus ou anticorpos. “Verificou-se que três aves continham anticorpos, o que mostrou que elas já tiveram contato com o vírus anteriormente”, comentou.

Ainda de acordo com o neurologista, outras ações também foram tomadas. “Além da avaliação de vizinhos e familiares do paciente, está em andamento uma busca retrospectiva de pessoas que se internaram anteriormente com febre ou alguma manifestação neurológica, com coletas de amostras para análise. Também ficou decidido, daquele momento em diante, que quem ficar doente também será testado”, contou.

Em nota, a Diretoria de Vigilância e Atenção à Saúde da Secretaria Estadual de Saúde do Piauí afirmou que estudos adicionais em andamento na região devem ser divulgados em breve. “A rede hospitalar do estado e os serviços de vigilância epidemiológica encontram-se atentos à possibilidade de detecção de outros casos. As medidas de controle pertinentes à situação serão divulgadas e atualizadas pelo Ministério da Saúde a cada novidade, bastando, a princípio, a adoção de cuidados em relação à exposição aos mosquitos e à sua proliferação”.

Transmissão, sintomas e tratamento

A transmissão do vírus não acontece de pessoa para pessoa. O mosquito pica uma ave silvestre e, em seguida, o ser humano, cavalo ou outra ave. O ser humano e o cavalo podem adoecer, mas não são capazes de retransmitir o vírus para outro mosquito. Além disso, o contato de um ser humano com outro também é insuficiente para transmitir o vírus.

Cerca de 75% das pessoas picadas pelo vetor do vírus não desenvolvem a doença, mas em 1% dos casos podem ocorrer problemas mais sérios. A doença apresenta sintomas como febre alta, rigidez na nuca, desorientação, paralisia, fraqueza muscular e tremores. Em situações mais graves, é possível que ocorra inflamação do cérebro (encefalite), das meninges (meningite), da medula espinhal (mielite) ou dos membros periféricos (polineurite).

Não existe tratamento específico para a febre do Nilo. O método adequado é de suporte e envolve hospitalização, reposição intravenosa de fluidos, suporte respiratório e prevenção de infecções secundárias.…