Busca de novos medicamentos para populações esquecidas é prioridade, destaca Jadel Kratz

Publicação: 14 de fevereiro de 2018

Do ponto de vista clínico, no Brasil, apenas 4% dos estudos clínicos realizados até hoje focaram em doenças negligenciadas. É necessário um novo arsenal terapêutico para propiciar uma mudança radical

Infelizmente o interesse pelas doenças destas populações é reduzido e há baixo investimento nas enfermidades que atingem os mais negligenciados

Apesar dos esforços e investimentos aplicados nos últimos anos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de novos medicamentos para doenças negligenciadas, o tratamento farmacológico para estas enfermidades ainda está restrito a poucas opções. Os medicamentos disponíveis apresentam severas limitações (intimamente ligadas à natureza de seus ingredientes ativos), como toxicidade, baixa tolerabilidade e eficácia, administração parenteral, tratamento de longa duração, e alto custo. Assim, a busca por novos tratamentos eficazes, seguros e acessíveis é crucial.

O Coordenador do Lead Optimization Latin America (LOLA) da Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, sigla em inglês), Jadel Müller Kratz, explica que múltiplas estratégias podem ser aplicadas para o desenvolvimento de medicamentos. No entanto, etapas básicas da cadeia de P&D, como estudos pré-clínicos e clínicos, são comuns à grande maioria das abordagens. Novas formulações e associações de fármacos existentes são estratégias de médio prazo que podem gerar avanços no tratamento dos pacientes. Entretanto, é necessário um novo arsenal terapêutico para propiciar uma mudança radical no curso destas doenças. Novas entidades químicas, que tenham um perfil mais “drug-like” e que possuam diferentes mecanismos de ação, representam uma estratégia de longo prazo viável. Elas podem ser empregadas como monoterapia, mas também ser administradas em combinação entre si ou com medicamentos já disponíveis, evitando assim a resistência cruzada.

“O processo de triagem e otimização de novos compostos é bastante multidisciplinar, e particularmente difícil no caso de doenças infecciosas onde o parasita é primordialmente intracelular. Para que sejam dados o suporte e as ferramentas necessárias aos pesquisadores, é igualmente importante que o entendimento sobre os parasitas e sobre a patologia das doenças seja o maior possível. Esse conhecimento possibilita a construção e contínua atualização de modelos in vitro e in vivo. Estes modelos permitem o desenho, avaliação e otimização de compostos que sejam seletivos e eficazes o suficiente frente aos parasitas”, ressalta.

Neste sentido, a DNDi trabalha esta etapa inicial da pesquisa e desenvolvimento ao estimular a inovação e ao explorar caminhos não convencionais para o desenvolvimento de medicamentos. De acordo com Kratz, isso é feito basicamente de duas formas. Primeiro, atuando por meio de redes de colaboração globais, a DNDi integra as capacidades e experiências de diversos parceiros na implementação de todas as fases do processo de P&D: desde a descoberta de novas entidades químicas e pesquisa pré-clínica, até ensaios clínicos e estudos de implementação e acesso a medicamentos em larga escala. E segundo, ela desvincula os custos de desenvolvimento do preço final dos medicamentos e negocia acordos de licenciamento que promovam o acesso, suprindo assim uma demanda dos pacientes que não é atendida pelo modelo de negócio da indústria farmacêutica.

Kratz detalha que na etapa de descoberta, a DNDi se organiza em consórcios multicêntricos de pesquisa (três no total), reunindo parceiros de diferentes especialidades sob um objetivo comum. O primeiro passo consiste na identificação e validação de compostos ativos (hits), originados de bibliotecas de compostos comerciais ou provenientes de parcerias com indústrias farmacêuticas. “Uma vez identificada uma nova série química de interesse, ela passa por processos repetitivos de otimização multiparamétrica (farmacodinâmica, farmacocinética e segurança). A otimização segue critérios definidos nos perfis de candidatos-alvo (TCP, por sua sigla em inglês) até que um candidato pré-clínico com características aceitáveis seja obtido, ou a série química abandonada”, complementa.

Na América Latina, desde 2013, são realizadas atividades de descoberta com o programa Otimização de Compostos Líderes da América Latina. Lançado em parceria com o Laboratório de Química Orgânica Sintética da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, hoje o consórcio extrapola fronteiras e une parceiros da região, Bélgica, Suíça, Estados Unidos, Austrália, Escócia e China. “Nesta rede, que segue preceitos de inovação aberta, compostos são testados in vitro e in vivo contra Trypanosoma cruzi e Leishmania spp, causadores da doença de Chagas e da leishmaniose, respectivamente, e aprimorados por meio de ciclos iterativos de design-síntese-triagem-análise”, aponta.

Desafios que dificultam a busca por novos medicamentos no Brasil e na região

Além das dificuldades intrínsecas às doenças e as limitações dos modelos experimentais, há obstáculos particulares à América Latina que dificultam a busca por novos medicamentos para doenças negligenciadas. O Coordenador do LOLA afirma que o investimento em pesquisa é descontínuo e acanhado, se comparado com outras áreas, como com o campo das doenças crônicas não-comunicáveis. “Ademais, a dificuldade na obtenção de consumíveis, a carência de esforços multicêntricos e estruturados, e a falta de harmonização entre ensaios realizados por diferentes grupos de pesquisa geram uma lacuna na cadeia de desenvolvimento”, lamenta.

Segundo Kratz, no âmbito da descoberta de novas entidades químicas, muitos resultados promissores são gerados na etapa de triagem de compostos. Entretanto, os hits iniciais normalmente não seguem uma etapa de otimização racional, através da qual dariam origem a candidatos pré-clínicos com perfis adequados. “Do ponto de vista clínico, no Brasil, apenas 4% dos estudos clínicos realizados até hoje focaram em doenças negligenciadas, um provável reflexo dos obstáculos regulatórios, da falta de investimentos a longo prazo e de prioridades na política de P&D farmacêutico”, revela.

Em sua opinião, uma melhora neste quadro geral envolve necessariamente a formação de competências locais e o trabalho conjunto, em todas as esferas, por meio de estratégias integradas. “E em paralelo, envolve suporte aos avanços já obtidos pelo estabelecimento de uma política industrial para o setor farmacêutico regional, através da criação de parcerias público-privadas e garantia contínua de recursos. Neste sentido, a DNDi interage continuamente com a comunidade científica, divulga seus resultados e TCPs para ajudar na seleção de novos compostos com maior probabilidade de sucesso, e tem estruturado núcleos colaborativos de pesquisa não-clínica e clínica em áreas endêmicas”, acrescenta.

Kratz garante que houve avanços e colaborações importantes na área que ajudaram a povoar o pipeline de desenvolvimento atual. “Contudo, o caminho a ser percorrido por uma nova entidade química, desde a descoberta até o registro, é longo e custoso, e as taxas de atrito são implacáveis. Para maximizar as chances de acesso a novos medicamentos pelos pacientes negligenciados é crucial que todos os agentes envolvidos no P&D mantenham o foco de seus esforços no entendimento das doenças e na melhoria das estratégias de investigação, sem esquecer a importância da valorização da ciência e da promoção de um ambiente favorável para a pesquisa na região”, finaliza.