Brasil registra aumento no número de casos de brucelose humana e por acidente vacinal

Publicação: 7 de novembro de 2017

De acordo com o infectologista especialista em brucelose humana, Dr. Marcos Vinícius da Silva, as vacinas usadas na medicina veterinária, tanto em bovinos como em caprinos, podem produzir a doença em humanos

Não temos informação sobre o número real de casos de brucelose humana, não conhecemos a dimensão desse problema, apenas parte dele que são os casos que nos chegam

Caracterizada como importante zoonose de distribuição mundial, a brucelose é um sério problema de saúde pública. Embora tenha havido grande progresso no controle da doença em muitos países, ainda existem regiões onde a infecção persiste em animais domésticos e, consequentemente, a transmissão à população humana ocorre. No Brasil, o infectologista especialista em brucelose humana, Dr. Marcos Vinícius da Silva, acredita que o número de casos esteja aumentando, pois além da transmissão natural, hoje tem aumentado o número de casos por acidente vacinal uma vez que, as vacinas usadas na medicina veterinária, tanto em bovinos como em caprinos, podem produzir a doença em humanos.

O desconhecimento da doença pelos médicos e a dificuldade no diagnóstico laboratorial fazem da brucelose humana uma zoonose negligenciada. “Ela é desconhecida por boa parte dos profissionais da saúde. Os sinais e sintomas são polimórficos, por isso que ela também é denominada Doença das mil faces. As informações sobre os antecedentes epidemiológicos do paciente podem nos auxiliar na suspeita diagnóstica, mas nem sempre isso ocorre, principalmente porque hoje desconhecemos a procedência de muitos alimentos que consumimos entre eles a carne, o leite e os seus derivados”, ressalta ao acrescentar que outro problema no diagnóstico da doença é a baixa sensibilidade dos métodos de cultivo da bactéria a partir de material biológico dos pacientes. “A brucela é uma bactéria que oferece grande risco de infecção para o pessoal de laboratório que trabalha com ela, necessitando ser manipulada em laboratórios com biossegurança P3. Outra dificuldade é a falta de bons testes laboratoriais imunológicos que possam diagnosticar tanto a doença produzida por cepas de brucelas lisas como pelas rugosas”, explica.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), a incidência da brucelose humana pode ser cinco ou mais vezes superior aos números oficiais. O doutor Marcos Vinícius afirma que não há informação sobre o número real de casos. “Não conhecemos a dimensão desse problema, apenas parte dele que são os casos que chegam ao nosso Ambulatório de Doenças Tropicais, Zoonoses e Febre a Esclarecer, no Instituto de Infectologia Emilio Ribas ou por consulta que nos chegam de outros profissionais da saúde”, lamenta o especialista. Ainda de acordo com ele, a brucelose humana, muitas vezes, pode ser diagnosticada como tuberculose com baciloscopia, cultura e testes moleculares negativos. Como os sintomas dessas duas doenças podem ser parecidos, na suspeita de tuberculose sem confirmação laboratorial é introduzido esquema terapêutico que contem rifampicina, medicamento também empregado no tratamento da brucelose. Como o tratamento da tuberculose é longo, ele pode tratar a brucelose e nem o médico e nem o paciente saberem que na realidade tratava-se de brucelose e não de tuberculose.

Em 2001, o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) instituiu o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose. Segundo o doutor Marcos Vinícius, com a implantação e intensificação do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose pelo órgão, inicialmente passou-se a conhecer a extensão e dimensão da brucelose bovina, conforme resultados dos inquéritos realizados por esse Ministério em grande parte do Brasil. Uma das medidas adotadas foi a intensificação da vacinação para brucelose no gado Bovino e com isso, aumento dos casos de acidentes vacinais e dos casos dessa doença nessa forma de transmissão. Além da brucelose transmitida por bovinos, há também a por suídeos, caprinos, ovinos e a canina, esta última totalmente desconhecida e com dados de trabalhos pontuais de médicos veterinários preocupantes.

Existem apenas alguns países do mundo que estão oficialmente livres da doença, embora ainda ocorram casos em pessoas que retornam de regiões endêmicas. Apesar dos avanços, a brucelose humana continua a ser uma importante doença em muitas partes do mundo, especialmente Mediterrâneo, países da Europa, norte e leste da África, Oriente Médio, Sul da Ásia e Ásia Central, América Central e do Sul, onde muitas vezes não é reconhecida e relatada. A Expansão das viagens internacionais, o consumo de produtos exóticos, que podem estar contaminados, e a importação de tais alimentos, também contribuem para a crescente preocupação com a brucelose humana.

A prevenção e o controle da doença precisa de ação de apoio de vários setores, incluindo os responsáveis pela segurança alimentar e pela educação do consumidor. “Para evitar a doença, o primeiro passo seria divulgá-la no âmbito da saúde pública e que os médicos soubessem reconhecê-la. Segundo, dispor de métodos laboratoriais diagnóstico com boa sensibilidade, especificidade e acessibilidade aos mesmos. E em terceiro lugar a informação sobre a doença à população e aos profissionais da medicina veterinária sobre a epidemiologia, transmissão, sintomas, diagnóstico, tratamento e transmissão por acidente vacinal”, finaliza o especialista.