Cerveja aumenta quantidade de picadas de mosquitos

Publicação: 7 de novembro de 2017

Entre vários fatores, o consumo de alimentos e bebidas pode influenciar a atração de mosquitos e outros insetos hematófagos

Carlos Brisola Marcondes

Professor Titular do Departamento Microbiologia, Imunologia e Parasitologia (MIP) do Centro de Ciências Biológicas (CCB) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

A pele e o ar exalado podem conter substâncias que influenciam a atração de mosquitos, diferenciando os indivíduos e levando a atração diferente de crianças e adultos, com variações entre raças

Um dos principais determinantes da transmissão de doenças originadas de insetos vetores é a frequência de picadas nos reservatórios. Desta forma, os fatores que influenciam esta quantidade são de importância epidemiológica.  Assim, por exemplo, o controle de malária é mais eficiente se se tiver como alvo principalmente os indivíduos que levam mais picadas. As gestantes estão entre esses indivíduos que atraem mais mosquitos, provavelmente pela maior quantidade de ar expirado e maior temperatura corporal.

Entre vários outros fatores, o consumo de alimentos e bebidas pode influenciar a atração de mosquitos e outros insetos hematófagos. Similarmente, o alto consumo de álcool, principalmente em áreas endêmicas, é um fator muito importante para a saúde pública, pois parece aumentar a atração de insetos. Para avaliar este efeito, foram desenvolvidos alguns testes comparando a atração de voluntários que ingeriram cerveja com os que não a ingeriram para mosquitos.

Em dois estudos, um no Japão e o outro em Burkina Faso, foi verificado o efeito da ingestão de cerveja, respectivamente a atração para Aedes albopictus e sobre Anopheles gambiae. No primeiro, se usou uma 350 ml de cerveja feita de cevada e no segundo uma quantidade não informada de uma feita com sorgo (4% de etanol), localmente chamada de dolo.

Em ambos os estudos, se notou aumento significativo na atração dos insetos e, no segundo, verificou-se também o estímulo ao voo dos mosquitos. Este último efeito foi atribuído à dispersão do álcool pelo organismo, com presença de etanol no suor, mas não se considerou que esta presença influenciasse a atração. No primeiro, houve variações na temperatura, dependentes da tolerância ao etanol. No segundo estudo, se observou que a redução de temperatura corporal e a quantidade de CO2 exalado (esta última não influenciada pela cerveja), não tiveram efeito significativo sobre a atração. Os autores supuseram que com a cerveja haveria maior produção de cairomônios (as substâncias voláteis emanadas dos hospedeiros que atraem os vetores) como o 1-octeno-3-ol, que atrairia mais mosquitos.

A quantidade ingerida de cerveja no primeiro estudo foi muito pequena mas mesmo assim se observou influência na atração dos mosquitos. Testes mais detalhados com quantidades e tipos variáveis de bebidas, com exposição aos vetores em períodos diferentes após a ingestão seriam úteis para se entender a transmissão de doenças como a Malária, Dengue, Zika, Chikungunya e Calazar.

A pele e o ar exalado exalam substâncias que influenciam a atração de mosquitos, diferenciando os indivíduos e levando a atração diferente de crianças e de adultos. Há também variações entre raças, mas a ecologia química da atração de artrópodes é um assunto difícil e ainda pouco compreendido Este processo de atração de mosquitos e outros insetos para hematofagia depende de fatores complexos, envolvendo olfato e visão, esta última principalmente em insetos diurnos, como a mosca tsé-tsé, da doença do sono e o nosso bem conhecido Aedes aegypti A flora bacteriana cutânea também tem grande influência no odor da pele, e já se notou atração de flebotomíneos por um queijo belga, com substâncias semelhantes às do odor de pés sujos (“chulé”).

Alguns autores sugerem que sejam feitos estudos com outras bebidas, além da cerveja, para verificar se é o álcool que afeta os mosquitos ou algo característico desta bebida. Seria também muito importante desenvolver testes no Brasil, com insetos de vários grupos, como borrachudos, flebotomíneos e maruins, e bebidas localmente bastante consumidas, como a cachaça. Com apenas dois estudos encontrados no assunto, é um campo aberto para pesquisas, tem grande importância sanitária, e podem ser desenvolvidas em campo ou em laboratório, usando olfatômetros. “Um colega de Manaus relatou que quando seus colegas tomaram cerveja atraíram tantos borrachudos quanto ele, que usualmente a toma”.

Outro fator não estudado para aumentar a quantidade de picadas é a provável redução da capacidade de defesa contra as picadas (“pele de bebum não tem dono”). Portanto, cuidado com a bebida, especialmente em excesso, pois pode aumentar a chance de ser infectado com malária, dengue etc.