Águas-vivas: acidentes acontecem há muito tempo na região Sul, mas não nos níveis observados agora

Publicação: 11 de fevereiro de 2017

Segundo o especialista no tema, Dr. Vidal Haddad, estes envenenamentos, que sempre ocorreram esporadicamente, vêm acontecendo em maior escala há cerca de cinco anos no litoral do Paraná e de Santa Catarina

Á esquerda, no alto: Chrysaora lactea, a água-viva associada aos acidentes em massa na região Sul. À direita, no alto, Olindias sambaquiensis, outra água-viva causadora de acidentes em massa, mas em menor proporção. À esquerda, abaixo: Lychnorrhiza lucerna, comum na região dos surtos, mas não envolvida com acidentes. À direita, abaixo: acidente típico por Chrysaora ou Olindias, com marcas irregulares e não lineares

Á esquerda, no alto: Chrysaora lactea, a água-viva associada aos acidentes em massa na região Sul. À direita, no alto, Olindias sambaquiensis, outra água-viva causadora de acidentes em massa, mas em menor proporção. À esquerda, abaixo: Lychnorrhiza lucerna, comum na região dos surtos, mas não envolvida com acidentes. À direita, abaixo: acidente típico por Chrysaora ou Olindias, com marcas irregulares e não lineares

Os acidentes em série causados por águas-vivas na região Sul não são fatos novos. Estes envenenamentos, que sempre ocorreram esporadicamente, vêm acontecendo em maior escala há cerca de cinco anos no litoral do Paraná e de Santa Catarina, com aumento gradativo do número de pacientes, até atingir marcas elevadíssimas como os cerca de doze mil pacientes no Paraná e seis mil em Santa Catarina, desde o meio de dezembro até o início de fevereiro. Mas o Professor Adjunto do Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu e da Universidade Estadual Paulista, Dr. Vidal Haddad, membro da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), especialista no tema, aponta que as estatísticas dos casos que vêm acontecendo há cerca de cinco anos nem sempre foram adequadas. “No ano passado, houve um número semelhante de acidentes, mas os registros não eram tão precisos”, acrescenta. Outro agravante é o número crescente de veranistas a cada ano, o que se soma a um aumento ainda não explicado de duas espécies de águas-vivas na região (Chrysaora lactea – principalmente – e Olindias sambaquiensis). Para o médico, os surtos no Sul não têm um fator único determinante e pode ser creditado a esta somatória de fatores.

Os acidentes deste verão começaram na mesma época dos anos anteriores, possivelmente com aumento do número de águas-vivas na região (época de reprodução, aumento de temperatura das águas e outros fatores que estão sendo analisados, mas não há uma causa definitiva). Entretanto, o aumento da temperatura da água ocorreu também no restante do litoral brasileiro e não aconteceram surtos. Talvez as condições geográficas dos locais tenham se somado ao aumento de temperatura da água e ao período reprodutivo (mais uma multidão nas praias) criando os acidentes múltiplos. Dr. Haddad aproveita para esclarecer que o termo “queimadura” não é o ideal, pois é um envenenamento, causado por toxinas presentes em células produtoras de peçonha. A dor é que lembra uma queimadura, mas o termo deve ser evitado.

Como os banhistas podem se prevenir destes acidentes

Divulgação de informações corretas deve contribuir. Para isso, está sendo desenvolvido um texto informativo, que conta com a colaboração de bombeiros, médicos e zoólogos. Em relação ao controle biológico, há zoologistas da Universidade de São Paulo (USP) estudando o problema, mas a questão é multifatorial e não terá controle fácil. Na opinião do especialista, a prevenção possível é o bloqueio das praias onde os acidentes estão comuns. Outra medida adotada foi a confecção de uma bandeira azul que já está sendo usada em Sana Catarina para avisar os banhistas sobre o problema.

Dr. Haddad elucida que os acidentes na região Sul não são graves. A dor é intensa, mas breve. O tratamento para controle da dor emprega compressas de água do mar gelada e banhos de vinagre. A temperatura baixa anestesia o local e o vinagre impede as células de veneno ainda ativas de aumentarem o envenenamento. Ambas funcionam e são excelentes medidas para envenenamentos leves (mais de 90% dos observados no local). Mas estas medidas não impedem os raros casos graves, pois não agem no veneno. Existem acidentes graves por veneno e alguns que causam alergia potencialmente fatal. Estes acidentes graves acontecem por caravelas e por uma classe de águas-vivas chamada de cubomedusas, mas são esporádicos lá, sendo comuns nas regiões Norte e Nordeste.

A padronização do tratamento e o conhecimento real sobre os animais são fundamentais para controle dos surtos e para a tranquilidade da população. “Não sabemos se o aumento das populações de cnidários na região é reversível, mas a explosiva somatória dos animais nas águas e a imensa população humana no veraneio é a causa destes surtos e devemos nos preparar para verões com números elevados de acidentes, que já são provavelmente os mais comuns envenenamentos por animais peçonhentos atualmente no Brasil”, finaliza.