A influência da mudança do clima sobre a dinâmica das doenças tropicais

Publicação: 6 de junho de 2017

Na influência indireta do clima sobre as endemias, alguns tipos de eventos meteorológicos extremos podem também causar epidemias de doenças infecciosas

O monitoramento da incidência e da expansão geográfica das doenças tropicais deve fazer parte da vigilância epidemiológica, com foco sobre as populações que já sofrem ou que poderão sofrer os impactos da variação climática

Ulisses Confalonieri1; Júlia Menezes2
1Pesquisador titular do Centro de Pesquisas René Rachou, Fundação Oswaldo Cruz
2Doutoranda em Saúde Coletiva do Centro de Pesquisas René Rachou, Fundação Oswaldo Cruz

As alterações globais do sistema climático decorrem da acumulação, na atmosfera alta, dos chamados “gases estufa”, sendo o principal o gás carbônico. Estes são emitidos em decorrência das atividades humanas, em especial a queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão) e de biomassa vegetal (ex. derrubada de florestas). A consequência é o aumento da radiação solar na superfície terrestre, com suas repercussões físicas (alterações nos padrões de temperatura e precipitação ao redor do globo) e biológicas (ex. alteração na fenologia e área de ocorrências das espécies).

Até o final do século, é esperado que haja um aumento global da temperatura média de até 4,5ºC, influenciando a ocorrência de doenças tropicais sobre novas áreas. O clima alterado influencia a dinâmica das doenças tropicais de forma direta ou indireta. Na forma direta verifica-se a ação da temperatura e da umidade sobre o ciclo biológico de agentes infecciosos, parasitários e de seus vetores. No caso da temperatura, há uma faixa ideal (14ºC a 40ºC) em que as condições são mais adequadas para os processos de infecção, porém, variações sutis dos limites mínimo e máximo dessa faixa podem favorecer a ocorrência de algumas doenças. É bem conhecido, por exemplo, o fenômeno de aceleração na duração do ciclo reprodutivo de parasitas como consequência de aumentos de temperatura. Para alguns vetores como Anopheles sp. e Aedes sp, climas mais quentes favorecem o desenvolvimento das formas imaturas e aceleram a digestão do sangue pelo vetor, fazendo com que eles se alimentem mais frequentemente. Isto pode contribuir para o aumento no risco de infecção em uma determinada localidade onde o clima se altere (ex. Malária). Pode também expandir geograficamente a área de distribuição de uma determinada endemia (ex. febre do dengue) que não ocorre em determinados locais em virtude do clima temperado, o que impede a proliferação de vetores. A precipitação também tem influência direta sobre a dinâmica da transmissão, pois favorece a formação dos criadouros e propicia um aumento na produção vegetal dos ecossistemas, favorecendo o aumento da população de hospedeiros.

Na influência indireta do clima sobre as endemias, alguns tipos de eventos meteorológicos extremos podem também causar epidemias de doenças infecciosas. Se a mudança do clima resulta em secas prolongadas, estas podem desencadear um processo migratório da população humana da região afetada e, assim, dispersar espacialmente uma infecção crônica antes restrita a uma determinada região. Isto parece ter ocorrido no Nordeste Brasileiro, nas décadas de 1980 e 1990, quando epidemias urbanas de Cólera e Leishmaniose Visceral (LV) foram registradas em algumas capitais imediatamente após anos sucessivos de secas. Mecanismo semelhante foi observado no início dos anos 1980 para surtos de Malária no Maranhão, em que secas prolongadas provocaram a migração de população sem imunidade para cidades próximas na região amazônica, áreas de transmissão endêmica da doença. Com o fim da seca, os migrantes retornaram ao estado infectados, causando um aumento significativo dos casos de malária importados, que se tornaram mais frequentes até mesmo que os casos autóctones. Para as inundações, a relação entre a ocorrência desses eventos e casos de Leptospirose foram observados para os estados do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Norte, por exemplo. No caso deste último, surtos epidêmicos ocorreram em anos de muita chuva em que houve um incremento da precipitação em relação à média histórica nos anos de 1985, 1986 e 1995.

Outro fator pelo qual a mudança do clima pode influenciar as doenças tropicais é através da maior frequência de fenômenos naturais como o El-Niño, o qual compreende uma variação periódica e irregular dos ventos e da temperatura da superfície do oceano pacífico. A influência sobre a dinâmica das doenças infecciosas pode ser variada, pois o fenômeno está associado ao aumento da precipitação em algumas regiões do país (ex. bacia do rio São Francisco), enquanto em outras, como na região Amazônica, o El-Niño está associado à redução da precipitação. Para a Bahia, por exemplo, a incidência anual da LV parece ser influenciada pela duração e frequência dos episódios de El Niño. De maneira geral, os anos de ocorrência do fenômeno estiveram associados à menor incidência de LV, enquanto os anos seguintes (sem a ocorrência do fenômeno) foram marcados pelo aumento da incidência da doença.

Independentemente das alterações esperadas na dinâmica das doenças tropicais ou de suas áreas de ocorrência, fato é que a mudança do clima poderá exigir novas maneiras de se pensar o controle e a prevenção dessas doenças em um futuro próximo. Quer seja no ambiente natural ou construído, as alterações ambientais e climáticas esperadas paras as próximas décadas poderão criar novos nichos ecológicos tanto para espécies adultas quanto para suas formas imaturas. Diante disso, o monitoramento da incidência e da expansão geográfica das doenças tropicais deve fazer parte da vigilância epidemiológica, com foco sobre as populações que já sofrem ou que poderão sofrer os impactos da variação climática.